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Este anúncio de que o BPI iria amortizar antecipadamente quase 590 milhões da dívida ao Estado parece-me mais marketing de Fernando Ulrich que outra coisa. Nunca o Banco de Portugal o autorizará a ficar tão à pele no rácio de core capital. Amortizará antecipadamente o empréstimo ao Estado em metade do que anunciou, no máximo.
O presidente Executivo do BPI anunciou hoje que o banco irá pedir ao Banco de Portugal e EBA para reembolsar antecipadamente em 588 milhões de euros o Estado (a entregar ao Ministério das Finanças). Após este reembolso, o montante de CoCo reduzir-se-ia de 920 milhões para 332 milhões de euros.
É verdade que ao custo a que este empréstimo foi concedido, Fernando Ulrich não descanse enquanto não se livra daquilo, e das condições que foram impostas ao banco (remuneração, dividendos, etc) por causa deste empréstimo. Mas não será difícil adivinhar que o Banco de Portugal não vai aceitar um reembolso antecipado desta ordem de grandeza. Porque aceitar a amortização antecipada de 588 milhões de euros, é aceitar que o Banco fique a funcionar com 7% de core capital, que é o mínimo que passará a ser exigido a partir de 2014, quando entrarem em vigor as novas regras de Basileia III.
O Banco de Portugal nunca aceitará que o BPI actue no mercado, numa altura destas com o rácio no mínimo legal.
Neste momento, o rácio de capital do BPI é folgado, mas com as novas regras, e com a nova avaliação do BCE aos bancos, o rácio terá de ser ainda optimizado. O BPI prevê essa optimização com a redução do capital da seguradora BPI Vida e com a venda de obrigações subordinadas perpétuas de seguradoras europeias, contando com isso o banco ficará com um core capital de 10%, logo três pontos percentuais acima, dos 7% legais. Esses 3 pontos percentuais, "correspondem a um excesso de capital de 588 milhões relativamente ao rácio mínimo de 7%", calcula o BPI.
O que, para além de não ser certo, ainda deixaria o BPI à mercê de riscos conjunturais inesperados.
Fernando Ulrich sabe isso, provavelmente, por isso este anúncio é acima de tudo para marcar uma posição de contestação às condições do empréstimo do Estado. O presidente do BPI sabe que o regulador lhe autorizará a amortização num montante menor, salvaguardando uma folga de capital.