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Óscares 2019. Mais um espectáculo político

por Maria Teixeira Alves, em 25.02.19

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Eu gostava que os prémios de cinema premiassem apenas cinema. Mas o mediatismo do evento torna impossível erradicar as agendas políticas. Os Óscares tornaram-se irremediavelmente numa forma de expressão das convicções políticas dos artistas e a Academia segue à risca a agenda política.

Vejamos a lista dos vencedores da 91ª edição dos Óscares – a gala organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Tudo começa bem nas categorias técnicas.  Melhor cenografia
Black Panther; Melhores efeitos visuais O Primeiro Homem na Lua; Melhor montagem de som e Melhor mistura de som Bohemian Rhapsody; Melhor banda-sonora original Black Panther; Melhor canção original Shallow, de Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando, Andrew Wyatt e Benjamin Rice (Assim Nasce Uma Estrela); Melhor montagem Bohemian Rhapsody; Melhor guarda-roupa Black Panther; Melhor caracterização Vice. 

Também nas curtas-metragens é o cinema que dita o prémio. Melhor curta-metragem documental Period. End of Sentence., de Rayka Zehtabchi; Melhor curta-metragem de animação Bao, de Domee Shi; Melhor curta-metragem Skin, de Guy Nattiv; Melhor documentário
Free Solo, de Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi; e Melhor filme de animação Homem-Aranha: No Universo Aranha, de Peter Ramsey, Rodney Rothman e Bob Persichetti.

Chegamos à melhor fotografia e começa a entrar a política na escolha. Vejamos ganhou o Roma, filme da Netflix, do realizador mexicano Alfonso Cuarón, deixando para trás o magnífico Cold War – Guerra Fria do realizador polaco Pawel Pawlikowski.

À medida que o mediatismo sobe aumenta a carga política na escolha. 

O Melhor Argumento Adaptado foi para o filme do Spike Lee, que subiu ao palco para pedir para votarem "bem" em 2020. BlacKkKlansman: O Infiltrado, passa-se no Colorado dos anos 70,  e é a história de um detective afro-americano que parte para se infiltrar e expor a Ku Klux Klan, falando ao telefone com os líderes, ganhando o respeito deles e mandando ir às reuniões em seu lugar um colega que é branco e judeu.

Spike Lee fez um longo discurso sobre os seus antepassados escravos e acabou a dizer que "as eleições de 2020 estão aí ao virar da esquina, vamos mobilizar-nos e ficar no lado certo da história. Fazer a escolha moral entre o amor contra o ódio.”

O Melhor Argumento Original também foi para um filme cuja causa política estava em evidência, apesar do mérito inegável de Green Book - Um Guia para a Vida. O filme de Peter Farrelly que acaba também por ganhar o maior óscar da noite o de Melhor Filme, conta a história de Don Shirley (Mahershala Ali), um famoso pianista negro que, em 1962, procura alguém que, durante a digressão de oito semanas que está prestes a fazer pelo Sul do país, ocupe simultaneamente os cargos de motorista e de segurança e sai-lhe na rifa um branco Tony Lip (Viggo Mortensen), um branco loiro e viril que o guia pelos EUA numa época que não deixava os pretos sentarem-se nos mesmos restaurantes dos brancos. O motorista branco de um cantor preto (ou negro, se preferirem) é um quadro demasiado tentador para uma Academia politizada.

Melhor filme de língua estrangeira foi para Roma de mexicano Alfonso Cuarón, aqui a política não é tão visível. 

Chegamos ao óscar de Melhor actriz secundária e mais uma vez a política volta à escolha a afro-americana Regina King, do filme Se Esta Rua Falasse, leva a estatueta deixando para trás Emma Stone, por A Favorita; Rachel Weisz, por A Favorita; Amy Adams, por Vice e Marina de Tavira, por Roma.

Foi também um afro-americano o vendedor do óscar de Melhor actor secundário. Mahershala Ali, por Green Book – Um Guia para a Vida

Curiosamente o óscar de Melhor actriz foi para a inglesa Olivia Colman, por A Favorita deixando a setagenária Glenn Close (no filme A Mulher)  mais uma vez sem estatueta. Será Glenn Close Republicana? Ainda vamos ver a próxima causa democrata ser a ... terceira idade.

O óscar de Melhor actor foi (injustamente, quando comparado com o actor do Vice) para Rami Malek, por Bohemian Rhapsody, deixando para trás o fantástico Christian Bale, no filmeVice. Mas a Academia ia lá resistir a um actor egípcio imigrante a representar o icónico cantor gay que morreu de SIDA nos anos 80? O que é isto comparado com o retrato de um Dick Cheney que se tornou o homem mais poderoso do mundo, quando se tornou vice-presidente de George W. Bush?

Chegámos ao Melhor Realizador e zás, em tempo de muro, um mexicano. Alfonso Cuarón, por Roma.

Mas se a escolha em si não era sinal suficiente de recado a Donald Trump, o ator Bardem tornou-o claro: “Não há muros nem fronteiras que consigam conter a genialidade e o talento”.

O filme do realizador mexicano é um excerto semi-autobiográfico na Cidade do México, que discorre a vida de uma empregada doméstica numa família de classe média. O seu título é uma referência à Colonia Roma, um distrito localizado em Cuauhtémoc, no México.

Um bom realizador devia ser acompanhado de eleição para melhor filme. Mas a Academia quer eleger porta-vozes de várias causas, para subir ao palco.

Por isso o Melhor Filme, foi, como já referido, para Green Book – Um Guia para a Vida, de Peter Farrelly. O filme foi pretexto para o congressista John Lewis, que apresentou o pequeno trailer, vir dizer "posso testemunhar que o retrato pintado [por este filme] desse tempo e espaço na nossa história é bem real. Está gravado na minha memória: homens e mulheres negros, nossos irmãos e irmãs, tratados como cidadãos de segunda. A nossa nação ainda carrega as cicatrizes desse tempo, e eu também”, um discurso que resume tudo. A culpa dos norte-americanos é o leit-motiv das opções políticas.

Foi assim que Imigração, muros e raça foram temas que regeram a 91ª cerimónia dos Óscares.

Eu sei que é pedir muito, mas será que seria possível eleger o cinema pelo cinema? É possível fazer uma selecção pela qualidade da arte, cega a causas políticas? Ou isso é demasiado "republicano"?

 

P.S. Eu da minha parte só tive olhos para o Bradley Cooper... :)

 

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publicado às 11:38


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