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 Já estou habituada a ver as coisas contra a corrente, e provavelmente este meu pensamento é mais uma vez um desses episódios. Mas expliquem-me como é que a proposta da Fosun para entrar no capital do BCP é um mérito do Governo?

É que acabo de ouvir o comentador da SIC, Luís Marques Mendes, a dizer, no âmbito do balanço de um ano de geringonça, que pela positiva se destacou "a solução para a banca", e citou: "Capitalização da CGD; o Dossier do BPI; Dossier do BCP; falta vender o Novo Banco, e também solução do Banif", disse sem no entanto explicar qual foi o papel do Governo na proposta da Fosun ao BCP.

Solução para a banca? Talvez a única solução para a banca tenha sido a extensão do prazo para o Fundo de Resolução pagar o empréstimo ao Estado, embora mesmo essa solução seja na prática a materialização das balizas legais que já constam na lei da Resolução (a contribuição para o Fundo de Resolução não pode pôr em risco a solvabilidade do sistema, etc,etc). Mas pronto, ainda dou de barato que esse acordo conseguido com Bruxelas, sem que isso seja considerado ajuda do Estado, possa ter salvo a banca de desaires piores. 

Mas de resto não contribuiu em nada de positivo. Nada. Nem o BPI ajudou muito, porque apesar de ter criado uma lei com vista a ajudar a queda da blindagem de votos do banco, essencial ao sucesso da OPA do CaixaBank, a verdade é que não foi preciso a lei para a blindagem cair. Caiu com a abstenção da Santoro (na votação da proposta do Violas). Foi mais eficiente o empréstimo do CaixaBank a Angola, do que 10 emissários políticos nas negociações entre accionistas.

Francamente, o que é não nos foi dito que faz com que seja mérito do Governo a proposta da Fosun para entrar em 16,7%? Num aumento de capital com supressão do direito de preferência dos accionistas que foi votado em AG do banco em Abril?

Capitalização da CGD. Mérito? Huum... talvez, se esquecermos o facto de para ser considerado operação em condições de mercado (essencial para que a comissária Vestager não tenha de considerar que é ajuda do Estado) o aumento de capital em dinheiro tem de ser acompanhado por uma emissão de obrigações subordinadas (que não contam para CETier 1) que serão emitidas a um custo altíssimo para o banco (10% ao ano), mais caro que os CoCos. E ainda vamos ver se o Eurostat não obriga a levar ao défice público o aumento de capital da CGD.

Ainda vamos ver no Novo Banco como será a solução.

Banif um mérito do Governo?! Por amor de Deus, para fazer aquilo com aqueles custos para o contribuinte, qualquer um teria feito. Chegar ao BES e pôr os contribuintes a pagar também tinha sido uma solução. O mais difícil é criar uma solução em que os contribuintes não paguem.

Acho que o mérito do Governo, sinceramente, é transformar negociações banais com Bruxelas em grandes feitos heróicos, e a capacidade que o governo tem de ceder a compromissos com Bruxelas em troco de aceitações importantes que servem depois de bandeira mediática.

Luís Marques Mendes, destacou no seu balanço como ponto negativo, o fraco crescimento da economia inferior ao do ano passado o que está a reflectir-se no aumento dos juros da dívida soberana, o que és particularmente relevante face a Espanha.

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publicado às 21:38




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