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A pressão jornalística portuguesa ao El Mundo

por Maria Teixeira Alves, em 26.06.17

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Os jornalistas portugueses não se conformam. O El Mundo atreveu-se, tamanho desplante, a pôr em causa o Governo das esquerdas unidas. Mas que sacrilégio.

Tudo por causa do El Mundo ter noticiado na passada quarta-feira as críticas crescentes à "gestão desastrosa da tragédia" por parte do Governo do primeiro-ministro António Costa, prevendo até "o fim da carreira política" do governante português. No mesmo artigo, o jornal espanhol refere ainda que as principais reivindicações têm recaído "em particular" sobre a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa.

O artigo desta quarta-feira, intitulado "Caos no maior incêndio da história de Portugal: 64 mortos, um avião fantasma e 27 aldeias evacuadas", pretende fazer um rescaldo da situação em Portugal ao quarto dia do incêndio em Pedrógão Grande. São ainda apontadas falhas "na coordenação das autoridades, tanto a nível dos trabalhos de extinção, como da comunicação com os media".

Eis que de repente há investigações e denúncias ao jornalista (imagine-se). Queriam identificá-lo para o ostracizar? Para o banir? Para descobrir algum podre que o desacreditasse? Descobrem que não o descobrem e com tamanha lata questionam o El Mundo, como se o jornal não tivesse competência para escolher jornalistas, ou para decidir a credibilidade das reportagens que publica.

Mas o conteúdo da notícia é falso? Isso nem é tema.

O importante é expô-lo na praça pública. Os portugueses queriam queimá-lo na fogueira do mediatismo. Mas lamentavelmente não têm uma cara para acusar, um cadastro, um currículo. Querem obrigar o jornal a revelar o culpado de ter criticado um governo de esquerda. O El Mundo não sabe que isso é imperdoável a um jornalista em Portugal.

Chega ao cúmulo de os jornalistas portugueses, representados pelo Sindicato, pedirem explicações a um jornal espanhol, fundado em 1989 e que vende mais do que o Correio da Manhã  (vou rever a minha condição de sindicalizada), e que não recebe lições dos jornalistas portugueses. Quem é o jornalista que assina como Sebastião Pereira e que escreveu o artigo? A Comissão da Carteira também questiona.

O El Mundo nem queria acreditar e a editora de internacional vê-se obrigada a desligar os meios de contacto.

Respondeu ao sindicato de jornalistas portugueses. "Nada fizémos de errado, recorremos a um jornalista que utiliza pseudónimo e que já conhecemos bem". Respondeu a editora da secção de Internacional do 'El Mundo' ao português Sindicato dos Jornalistas. "Párem de me atacar no Twitter! Párem de me enviar emails! Párem de tentar telefonar-me! Em 22 anos nesta secção nunca me aconteceu algo assim, nem nos casos da Venezuela ou da Turquia!" Nem mais.

Mas o importante agora é saber quem escreve? Ou o importante e refletir-se sobre o que está escrito? Algum leitor lê a assinatura dos artigos? O importante é confiar no jornal e na credibilidade editorial de um jornal. Se o jornalista assina com pseudónimo, ou se não assina sequer não é importante.

Cito um comentário que li no Facebook. "Não consigo perceber que no ano 2017 quando não estamos de acordo com o que se escreve se comece a chamar de facho".

Está ao nível de uma Venezuela, no doubt!

 

P.S. O artigo foi publicado pelo El Mundo, logo vincula ao El Mundo. Não é importante saber se foi o jornalista A ou o jornalista B, não vos parece?

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publicado às 01:05


23 comentários

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De Makiavel a 26.06.2017 às 12:00

Acredita mesmo que não é importante saber quem escreve um texto ou esse posicionamento apenas lhe serve para a construção do seu texto?

Não estamos a falar de um artigo de jornal relatando apenas factos. O seu conteúdo até pode ser verdadeiro, já a perspectiva como se apresenta é tudo menos ideologicamente pura, como pretende fazer crer. Estamos a falar de um artigo que expressa opiniões sobre os mesmos. E ainda assim acha que não é importante saber quem é o seu autor?

Desde quando é que um conteúdo pode ser analisado (consumido, como se diz agora) sem lhe perceber o contexto, autor incluído? Isso aprende-se nos bancos de escola.

Para si, o artigo ter sido escrito por um assessor de imprensa de uma qualquer máquina partidária ou por um jornalista sem ligações partidárias é indiferente?
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De Maria Teixeira Alves a 27.06.2017 às 12:15

Mas ou confia no El Mundo, ou não confia. Porque nenhum director de um jornal publica um artigo de um assessor de imprensa como se fosse de um jornalista. Sinceramente, penso que os portugueses dariam um salto qualitativo se desconfiassem menos. Desconfiam da própria sombra.
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De Makiavel a 27.06.2017 às 12:42

Essa visão dicotómica de confiar ou não confiar num jornal...
Tem em muito (demasiada) boa conta os directores dos jornais. Passam a ser boas pessoas, íntegras, intelectualmente honestas quando ascendem a esse cargo? Ou o melhor será mesmo avaliá-los continuamente?
O salto qualitativo que os portugueses davam se questionassem mais. Até em quedas de Canadairs acreditam; ou em suicídios sussurramos a ouvidos de engravidanço fácil.
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De Catarina de Macedo a 26.06.2017 às 12:17

Gostava de saber as fontes para tudo o que disse. Não basta colocar o link a remeter para o artigo do El Mundo e uma imagem minúscula da capa do jornal que nem menciona a tal notícia. Onde está a prova de toda essa contestação e da reacção do jornal espanhol? Não sabe que não pode fazer citações sem remeter para a fonte original? Desse modo as pessoas não podem ter confiança na informação fornecida. Agradecia por isso, que referenciasse devidamente a informação, em vez de demonstrar meros juízos de valor sobre uma situação que até agora não foi mencionada em lado nenhum.
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De Maria Teixeira Alves a 27.06.2017 às 12:18

Se a Catarina for pesquisar a resposta da editora do El Mundo ao Sindicato de Jornalistas percebe do que falo.
Fontes? Fontes de que informação? Não estou a perceber. Este é um artigo de opinião, meu, e é uma análise que parte de factos públicos.
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De Catarina de Macedo a 27.06.2017 às 16:15

Acabou por responder à sua própria pergunta. Questiona-me sobre "Fontes de que informação?" e depois remete-me para a resposta da editora do El Mundo...Lá está. Então afinal há que remeter para algum lado e devia ter feito isso no final do texto. A senhora mencionou pressão dos jornalistas portugueses sobre o El Mundo, citou frases e comentários dos jornalistas espanhóis face a essa pressão mas depois não diz de onde retirou a informação, e mesmo que sendo um artigo de opinião, deveria sentir-se moralmente obrigada a tal de modo a demonstrar a credibilidade do que diz.

Se diz que se baseia em factos públicos, deve indicar de onde retirou essa informação, não devendo assumir que todos os que lerem o seu texto tenham conhecimento do assunto que fala, nem dos pormenores que refere. Eu por exemplo, nunca ouvi tal coisa, daí que eu tenha achado estranho esta suposta polémica e ter esperado encontrar no fim as provas da sua existência, como a senhora diz existir. Mas apenas remete para a notícia do El Mundo sobre o incêndio de Pedrógrão Grande. Porquê remeter apenas para o artigo do El Mundo, que segundo o que diz, terá originado a polémica, e depois não remeter para mais nada?

Assumir que as pessoas vão a seguir tentar encontrar uma a uma provas de tudo o que disse, revela que não sabe escrever um artigo convenientemente. A opinião é uma opinião, é verdade, mas como disse, as opiniões devem basear-se em factos verdadeiros se não, não passam de meros mexericos sem qualquer cabimento. Daí que seja primordial, a existência de referências para o que disse. É o melhor para si, pela sua credibilidade, e é o melhor para os leitores, para que não sejam induzidos em erro. Não chega mandar através dos comentários, o leitor ir à procura das provas. Se a senhora fala sobre elas, tem de as apresentar, ainda por mais quando se fazem citações. Se tiver um curso superior, de certeza que lhe ensinaram isso.
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De Paulo Gonçalves a 26.06.2017 às 12:35

Bom dia Maria e a todos em geral,

à nossa página de facebook também chegou um pedido de ajuda para identificar o jornalista. Como se pode comprovar ainda lá figura, mas, como é evidente não fazemos ideia quem é nem queremos saber que é o Sebastião Pereira. A única coisa que nos move é a solidariedade entre os Ibéricos porque sabemos que vai trazer vantagens para todos. Sabemos muito bem o que é a "caça às bruxas", sabemos muito bem o que é o "jornalismo alinhado", mas, temos a convicção que quem avalia e cataloga jornalistas é a sociedade que os escolhe ler e não inquisidores de ocasião. Abraço a todos, sempre a V/ dispor. Paulo Gonçalves (Fundador e Coordenador Nacional - movimento Partido Ibérico).
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De Nuno a 26.06.2017 às 12:59

Quem escreve esta opinião desconhece que um jornalista tem um dever sagrado (ou que deve ser), narrar a VERDADE.
E conforme se pode constatar lendo os artigos do EL Mundo, o jornalista não narra a verdade.
Ainda de contrapor que a peça em causa seria uma suposta reportagem no terreno, mas ningué,m consegue identificar se esse "profissional" esteve ou não no terreno, sequer se está ou esteve em Portugal.
É isso que está em causa, pelos vistos a autora acha isso normal, portanto eu também posso assinar peças a dizer que estive em local x ou y, inventar um pouco e fica tudo bem.
Se a peça fosse uma crónica ou um artigo de opinião, tudo bem, não é o caso.
Preocupa-me uma jornalista com esta opinião, mas revela bem o desnorte de alguns profissionais.
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De Maria Teixeira Alves a 27.06.2017 às 12:21

Acho que não tem razão nenhuma, e por isso o que diz não é VERDADE. Está a ver, a verdade é relativa. O artigo é evidentemente um artigo jornalístico. Mas como calcula até o escolher um título e um lead, é um exercício subjectivo. O que as pessoas confundem com opinião é essa subjectividade inerente à escrita de um texto.
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De Nuno a 27.06.2017 às 15:09

sim, a verdade é relativa.
Para este jornalista a verdade é até uma realidade alternativa onde o governo esteve em causa, quando tal nunca aconteceu.
Mas enfim, começa a ser habitual esta postura, de tal forma que as pessoas cada vez mais optam por alternativas aos mainstream (as vezes ainda piores).
Se o dever do jornalista é narrar os factos, é normal que nao tema a verdade e portanto assine com o seu nome´, por vários motivos.
Pelos vistos discordamos no que depois altera a nossa diferença de opinião:
Eu opino que o artigo em causa é uma suposta reportagem, a Maria opina
que é um artigo de opinião, e isso faz toda a diferença.
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De José a 26.06.2017 às 14:34

Não li os artigos. Mas, pelo que se lê e ouve parece mais ser um conteúdo de opinião do que algum texto de foro informativo. Há uma questão que foi evidenciada, que é a suposta existência de eleições antecipadas daqui a quatro meses (não sei se isto está realmente nalgum artigo), quando apenas haverá as normais autárquicas. Caso isto esteja mesmo escrito, denota um completo desconhecimento da política portuguesa.
Mas há mais duas questões essenciais: caso seja um artigo de opinião, não vincula o jornal, mas o jornalista, pelo que seria legítimo e correto que o artigo estivesse assinado. Caso seja um artigo informativo, então a qualidade (à semelhança de muitos artigos portugueses) é nula ou próxima disso. Um jornalista não deve emitir opiniões, deve reportar factos. É interessante constatar que na altura em que foram publicados, ainda não tinham começado os ataques políticos, porque todos os políticos, da esquerda à direita, respeitaram o luto nacional. Ou seja, lá se foi a veracidade da notícia (se é que se trata mesmo de uma notícia) quando ela foi publicada.
A segunda questão essencial. O El Mundo é e sempre foi um jornal de direita. A direita espanhola tem claros motivos para atacar o governo das esquerdas em Portugal. O facto de o fazer por trás de um pseudónimo, num conjunto de artigos de opinião, não deixa de ser relevante. Mas diga-se de passagem, a qualidade do El Mundo, como jornal internacional, nunca foi recomendável.
O que eu não percebo é porque se dá tanta atenção a uns artigos de sensação escritos num jornal do país vizinho. É mau jornalismo? Talvez. Mas andar a filmar pessoas a chorar porque perderam tudo, enquanto mostram casas destruídas ou cadáveres no fundo do ecran, é ainda pior. Não me refiro apenas ao badalado caso da Judite de Sousa, também a Sic e a RTP fizeram aproveitamentos sensacionalistas da catástrofe. A certa altura era impossível ver os canais portugueses, quando todos tentavam superar o outro na busca pelo sofrimento. Acabei a ver o Mezzo na hora do jantar.

PS: O facto de fugir ao sensacionalismo dos canais portugueses não impede a minha compaixão pelo ser humano. Como muitos outros, também ajudei/ajudo quem sofre. Mas não me peçam para aceitar o bombardeamento do sofrimento todos os telejornais. Isso não é informação, é cinema. Mau cinema, ainda por cima. Também foi cinema, o artigo referido do El Mundo.
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De Maria Teixeira Alves a 27.06.2017 às 12:24

O artigo vincula ao El Mundo, claro. Já viu quantos textos são publicados às vezes sem as próprias iniciais nos jornais?
Se o artigo fosse falso e os lesados quisessem litigar teriam todo o direito de exigir ao El Mundo a identificação do autor, agora nunca o Sindicato de Jornalistas português.
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De Manuel Falcato a 26.06.2017 às 14:48

Não sei se foram as tais esquerdas unidas ou o D. Duarte, Duque de Bragança que pretendiam cometer tal heresia de achincalhar o impoluto jornalista das espanhas.
Uma coisa é certa, não precisam, os espanhóis que os portugas os defendam, eles dão bem conta do recado
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De OBLADI OBLADÁ a 26.06.2017 às 15:26

Bahhh! Muito do jornalismo cá do burgo é treta. Os gajos não são nada jornalistas. São uma treta. São como o ministro do ambiente, os Verdes, o Bloco, o PCP, o PS, o PSD e o CDS: "Almaraz abaixo, já". São como o 1º ministro, o Bloco, o PCP, o PS, o PSD e o CDS: "O calvinista holandês demitido, já". Srs. jornalistas da treta e não da treta, srs. chefões dos sindicatos dos jornalistas, venham para a rua gritar: "Queremos Olivença, já". Façam como o Louçã, que foi lá para as manifes e levou na tromba, mas foi lá. Não gritem como o Valentim Loureiro: "venham eles, quantos são?". Não. Vão mesmo lá, para levar nas trombas como o Louçã.
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De Armindo Oliveira a 26.06.2017 às 15:35

Olá Maria Teixeira Alves,

Sim parece. Mas aquilo que parece... na verdade não é. Os portugueses são campeões de elevadas qualificações nesta matéria, desenrascar e fazer de conta. 90% da população vai nessa.

Cumprimentos e bons textos.
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De DCAC a 26.06.2017 às 17:32

Discordo.
O relativismo é algo que conduz a tudo e a nada.
Foi catastrófico...Foi.
Não sei tudo o que correu mal. Alguma vez saberemos tudo!?
Basta que morreram pessoas.
Os castelhanos do tal El Mundo, o nome é significativo, que se debrucem sobre os problemas deles.
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De Maria Teixeira Alves a 27.06.2017 às 12:26

Penso que o El Mundo é livre de se debruçar sobre o que quiser.
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De Manuel Raposo a 26.06.2017 às 17:38

Portanto, segundo a autora deste blog, é perfeitamente legítimo publicarem-se notícias ou artigos de opinião sob anonimato. Enfim, num artigo de opinião até nem é grave, agora numa notícia é que não estou a ver como é que isso é aceitável. Como é que se faz verificação de fontes? É isto que ensinam nas escolas de jornalismo, hoje em dia?...
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De Maria Teixeira Alves a 27.06.2017 às 12:26

O El Mundo é que tem de confirmar a veracidade das fontes, não são os leitores.

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