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A beleza é aquilo que mais abate o fingimento

por Maria Teixeira Alves, em 06.04.15

A ver o Vale Abraão de Manoel de Oliveira e a pensar o quão genial é a Agustina. Porque só ela punha de forma tão irónica (e com o recurso à boutade) o impacto avassalador que a beleza tem na sociedade, no bem e no mal.
«O mal é só um tema de homilias, não se sabe se existe», diz ela. Depois de dizer que «A beleza é aquilo que mais abate o fingimento».

A beleza como musa inspiradora da admiração, por um lado e do medo e desconfiança, por outro. Raramente a beleza é musa inspiradora do amor, raramente. Mas isto digo eu. Agustina vê na beleza a fonte do poder, com tudo o que de épico e trágico isso implica. «Ema é uma fogueira», é dito. A beleza fascina e assusta, atrai o deslumbre e a vingança.

A sua beleza estonteante, se por um lado atrai todas as atenções e olhares e representa a força dominadora da sua existência, é ao mesmo tempo factor de marginalização social, pois representa uma ameaça tanto para os homens como para as mulheres: Ema torna-se uma mulher cada vez mais inadaptada. "Embora comece por ser seduzida pela vida mundana de Vale Abraão, nunca chega a inserir-se completamente, pois não entra no mesmo jogo das conversas de conveniência dos serões de uma sociedade que faz brilhantes dissertações sobre conceitos, que apenas cuida da imagem. Ema acaba por ser um estorvo, coloca questões que incomodam e, por isso, será sempre uma inadaptada Para sobreviver a essa sociedade que lhe é hostil, uma vez que todos a vêem como uma ameaça, Ema, consciente da sua exclusiva beleza, recorre à provocação e à evasão. Assume uma postura teatral, dissimula, para se tornar num objecto de admiração e de desejo e dominar a sua vida sexual e social" [é dito numa tese de mestrado em Estudos Francófonos, sobre o livro de Agustina].

Vale Abraão de Agustina é uma espécie de Madame Bovary transposta para o cenário do Douro.

"Ema bate-se contra a rede de pequenas e formidáveis misérias que se apertam em volta dela. Heroína provinciana das insatisfações típicas do ser humano"

 

Só como um romance filmado (e bem filmado), ao som de Bethoveen, Strauss e de Debussy, se pode perceber o filme de Manoel de Oliveira.

Ema é uma mulher insatisfeita, com desejos que ela própria tem dificuldade em definir. Dona de uma beleza estonteante, cedo começa a sentir por parte dos outros uma animosidade que, ao contrário de a surpreender, a faz sentir merecedora do desprezo. Os homens desprezam-na porque sentem na beleza dela algo de perigoso, têm medo do que não compreendem e desprezam-na. Ema procura ser amada, e vive num limbo entre querer um príncipe encantado que a tire da mediocridade, sustentando-a e tratando-a como um ser belo e digno de adoração e, o desejo que tem de ser independente e respeitada pelo que é e não pelo que esperam que ela seja.  O que ela pretendia era tornar-se inteligível e nunca conseguiu.

«O seu snobismo latente vinha ao de cima quando tinha de ouvir falar da Dona Augusta, o protótipo da papa-hóstias cuja bondade era uma história de cordel».

«Ema não iludia ninguém. Não tinha táctica. Tinha só o sentido do espectáculo.
Vestia-se e agia, como se tivesse de conquistar Holofernes no seu arraial, mas na realidade, não passava de um erotismo tabelado pela utopia do poder e da importância social.»

 «O que se aprende não tem a ver com o que se pensa, mas sim com os mal entendidos. Nunca percebi porque me chamam Bovarinha, e já li o livro duas vezes».

«A comédia leva a melhor sobre a vida»

 

 

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publicado às 01:25


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