Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O BCP e o dominó do poder que eu descrevi

por Maria Teixeira Alves, em 08.03.13

Descobriram uma offshore, de seu nome Burgundy, que revela uma relação entre João Rendeiro, BCP e Sócrates.

 

Em 2008 fui convidada para escrever um livro sobre um fenómeno que eu tive a sorte de assistir: a guerra de poder do BCP que, tal como eu descrevi, começou por ser uma guerra entre dois e foi-se avolumando à medida da ambição das pessoas que começaram a ver naquele braço de ferro entre Paulo Teixeira Pinto e Jorge Jardim Gonçalves uma oportunidade para ganhar o poder de mandar no maior banco privado português. Afinal todos queriam mesmo era ser presidentes do BCP. A moral, a ética, a justiça, a lealdade a Paulo Teixeira Pinto, eram meros pretextos.

 

Mal ou bem, no tempo que foi dado na altura, escrevi um livro sobre a minha visão (e realço, a minha visão) sobre o que se tinha passado no BCP. Não importa que outros tenham, no rescaldo do sucesso do livro assumido o protagonismo ( a vaidade acaba sempre por revelar-se ridícula, mais cedo ou mais tarde). Aquele livro é sobre isso, sobre o quanto é impossível na natureza humana erradicar a vaidade. Vaidade dos que moveram uma guerra de poder, mas também vaidade dos que acabaram destronados. É quase impossível na natureza humana erradicar a vaidade, escrevi na altura, hoje acrescento, mas não é impossível disfarçá-la.  

Quando escrevi o livro quis dar-lhe o título de Dominó (mas infelizmente o editor quis dar o titulo Terramoto BCP) precisamente porque de uma pequena guerra de poder entre um antecessor e um sucessor, se foi avolumando o desmoronar de todo um castelo de prestigio que tinha sido construído no BCP. 

Aquele é um livro (não importa quem acha que é um livro de uma facção da guerra, porque não percebem que nem sempre não estar convosco significa estar contra vocês) sobre a sociedade portuguesa. É uma sátira ao rídiculo das guerras de poder de uma elite que dá tudo pelo estatuto. Aquele é um livro sobre a futilidade das elites portuguesas, é um livro sobre a vaidade que cega e legitima o absurdo. Tudo o que eu escrevi apontava para que, daquela fogueira de vaidade sobrasse só a destruição. Todos perderam. E aí está: os ex-administradores continuam nos tribunais, ou lutam publicamente para salvar as reformas (injustamente cortadas como todos os cortes de reformas e salários).

Pedro Maria Teixeira Duarte perdeu a Cimpor e gere uma empresa num sector moribundo. Joe Berardo, ridiculamente exaltado na altura, por mero oportunismo, hipotecou todos os bens e hoje é uma imparidade para os bancos. Manuel Fino, que traiu Jardim Gonçalves, perdeu todos os seus investimentos, altamente alavancados. Paulo Teixeira Pinto foi enterrar o prémio que ganhou no BCP num investimento desastroso, na editora Babel. João Rendeiro, Salvador Fezas Vital e Paulo Guichard destruíram as suas vidas e sobretudo a dos seus clientes, quando levaram o BPP à falência, e correm o sério risco de prisão por burla. Hoje sabe-se que João Rendeiro usou o dinheiro dos clientes para tentar comprar uma posição no BCP. A vaidade mata. Armando Vara ficou arrumado profissionalmente, porque a sua esperteza foi escutada pela Judiciária. Carlos Santos Ferreira viu cair a sua administração antes do fim do mandato. 

Só se safaram os consultores da revolução. Aqueles que foram suficientemente inteligentes para não dar o corpo às balas, para não investirem demais numa ambição: os (muitos) advogados que cobraram boas comissões e ganharam imensa publicidade; e António Mexia (leal aliado de Paulo Teixeira Pinto). Fernando Ulrich também, porque teve sorte de a fusão com o BCP ter falhado. Os menos vaidosos, ou melhor, os vaidosos mais inteligentes, só esses escaparam ao terramoto que varreu o BCP.

Tenho pena de alguns ingénuos que foram apanhados pelo caminho.

O livro tem um tom de sátira Agustiniana porque a melhor maneira de lidar com a tragédia que nos escapa travar é a ligeireza do humor, assim Joe Berardo é o corvo que aparecia nas Assembleias Gerais e Fernando Ulrich tinha a voz da razão (até isso mudou) e fez a guerra tremer. Porque Fernando Ulrich quando falava, levava consigo aquela pose de quem "antes de ser já o era". Assim como a pescada!

O mundo mudou e Portugal jamais voltará a ser o que foi há cinco e seis anos atrás.

publicado às 22:23


1 comentário

Sem imagem de perfil

De António Pereira de Carvalho a 10.03.2013 às 01:25

“Esta crise do BCP, pode parecer uma guerrinha que à distância do tempo tenderá a parecer arqueologia, mas ela é o reflexo de um país à deriva, submerso na lógica demagógica do poder das aparências. O BCP é hoje uma extensão da filosofia que rege o país, em que se quer fazer acreditar que o que parece é.”
Terramoto BCP Toda a história
Booknomics, 1ª Edição, Junho de 2008, pág. 222
Maria Teixeira Alves

Comentar post




Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2016
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2015
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2014
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2013
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2012
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2011
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2010
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2009
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D




Links

Blogs e Jornais que sigo

  •