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A Árvore da Vida

por Joana Mello, em 07.06.11

Fui ao cinema. Cheguei atrasada mas a tempo de apanhar o statement sobre o qual se constrói todo o filme: «Há a via da graça e a via da natureza». A partir daí foquei a minha atenção académica e emocional no modo como o relizador iria apresentar-me o que interpretei como as duas dimensões com que completamos o ser humano: a física e a metafísica. Malick misturou-as e fundiu-as, tanto na história (no pai e na mãe), como nas imagens da vida na Terra que nos chegavam com grandiosidade estética e melódica. A pessoa ao meu lado queixou-se de ter pago para ver o National Geographic mas não me deixei distrair por esse comentário óbvio porque estava a tentar apanhar a perspectiva e não o objecto em si e a gozar a capacidade única do cinema para construir tempo e espaço à velocidade da luz, ou à velocidade do pensamento (sou daqueles que ainda agradece aos Santos Lumière pela graça do cinema, bom e mau).

Entretanto informei-me e vim a saber que este filme é considerado pretensioso. De facto, a mensagem que veicula é extremamente simples e os suportes que a sustentam são extremamente rebuscados, o que, segundo Umberto Eco, é a definição de mau gosto. Todavia, assim sendo, a capela sistina é extremamente pretensiosa, a nona sinfonia é pretensiosa, os poemas de amor são pretensiosos, a maior parte das tragédias gregas (que tratam o mesmo problema exposto em Árvore da Vida) são pretensiosas etc. etc. - eu própria sou pretensiosa. Um dos problemas é que fazer um poema visual sobre a condição humana arrisca sempre alguma pretensão, algum tropismo, que, como sabem, se alimenta dos lugares-comuns da retórica, quer queiramos quer não. Outro problema é que o filme é belo, esteticamente aprazível, e suponho que os fãs de Malick, exijam arte e não design, isto é, exijam algo chocante e não algo «decorativo»; mas este é um problema que afecta toda a arte actual que vive em litígio com a beleza, os artistas fogem hoje do cânone do belo como como o diabo da cruz, com medo de não parecerem artistas, felizmente o realizador borrifou nesta fobia. Pessoalmente gostei muito. A princípio pensei estar apenas perante um remake do 2001 Odisseia no Espaço, mas no fim saí do cinema com a sensação de que 2001 foi um mau remake deste filme. Gostei da angustia entre repressão e expansão, gostei da cisão entre entrega e conquista. Gostei, é claro, porque sou pretensiosa, do grande paradoxo humano representado nos filhos, ou seja, na possibilidade de fim e de continuidade. Eu explico. Os filhos são passaporte da nossa felicidade (a felicidade é o futuro, a vida eterna, a dimensão para além de nós) mas são também o passaporte da mais atroz infelicidade: se os perdemos, se morrem, morre com eles não apenas a nossa pessoa mas a promessa da nossa pessoa, morre a nossa salvação, morre o eu e morre o eu depois de mim. No entanto esta tragédia só existe no pensamento físico e linear. No pensamento metafísco não há tragédia porque a linha da vida se apresenta ciclicamente e não linearmente, a esfera não tem fim nem princípio, qualquer ponto é o centro e a angústia desaparece ao aceitarmos que a árvore da vida é naturalmente a árvore da morte. Catitérrimo.

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publicado às 22:45


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