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Da questão árabe à ideia de democracia

por António Canavarro, em 24.02.11

Logo a seguir ao 25 de Abril, uma dessas editoras da moda de então, a Futura, publicou um livro de um universitário norte-americano precisamente intitulado “Democracia”. Recordo a obra de Carl Cohen na medida em que ele, a páginas tantas, faz referência a um conceito particularmente interessante, justo e eficaz: o da “amplitude democrática”.

 

Ora, sabemos que o conceito puro de democracia é ineficaz, utópico, e até indesejável. Pois em nome desse ideal foram feitas as maiores barbaridades da história. É preciso recordar que foi em nome desse ideal que foi estruturado idealmente o comunismo. Todos sabemos no que isso deu! No entanto, partir do pressuposto “ocidentalizante”, i.e., teoricamente racionalista, de que, à cabeça, a democracia é impossível nos países árabes é frustrante.

 

A Índia é, para todos os efeitos, a democracia mais populosa do mundo e, no entanto, serão eles, nos nossos padrões, verdadeiramente democráticos? Que raio de democracia é esta em que, não raras vezes, a transição é feita matando-se como aconteceu com Indira Gandhi, em 1984, e, mais tarde, com o seu filho Rajiv Gandhi, em 1991? Será assim verdadeiramente impossível uma democracia “arábica”?

 

Acontece, todavia, que a questão é diversa. Em bom rigor, de per si, nem é política. Porque, de facto a democracia é uma “questão interior” – “A democracia”, escreve Lacroix, é “uma aventura – a aventura do pensamento no interior da sociedade humana”, pelo que tinha razão Alain quando afirmou que “uma democracia sem espírito não pode durar muito tempo”! E, por outro lado, tal como no cristianismo é fundada no amor: “A democracia é de essência evangélica e tem por motor o amor” [Bergson]. Ou seja, “o democrata reconhece-se no respeito escrupuloso pelo pensamento de outrem. E é precisamente este respeito que o anti-democrata recusa e teme!”

 

publicado às 23:46


2 comentários

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De Maria Teixeira Alves a 25.02.2011 às 01:19

Democracia é uma questão interior. No entanto a democracia sendo o sistema mais justo tem falhas de eficácia e na verdade é dos sistemas mais utópicos. A democracia é imperfeita porque nem todos os homens são iguais, e na democracia há a tentação da uniformização. É a tirania do número. A maioria votou no Hitler. A experiência diz-me que a maioria quase nunca tem razão. Ao contrário do que defende a democracia. Em teoria deveria haver um sistema mais meritocrático em que as decisões fossem todas pelos mais sábios, pelos mais lucidos. Mas aí voltava-se a cair noutro engodo.... o engodo de sabedoria passar a ser soberba. O engodo da subjectividade. Como vês a organização política e social, é das coisas mais díficeis da humanidade, e no entanto é impossivel ao ser humano sobreviver sem elas.
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De António Canavarro a 25.02.2011 às 14:28

Isto é uma questão sem escolha possível. É o mesmo que perguntares o que leva mais água: um copo meio cheio ou um copo meio vazio? Estou a ser minimalista no sentido de dizer que apesar de tudo a democracia ainda é o melhor que se arranja para ai. Vou corrigir: O que verdadeiramente interessa é a liberdade. O que seria de nós se não tivéssemos a liberdade de podermos escrever o que nos vai na alma? o resto vem por acréscimo.

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