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Pandemia em Portugal: Se alguma coisa pode correr mal, corre

por Maria Teixeira Alves, em 23.01.21

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Este texto não pretende crucificar governantes, nem o chefe do Estado, em véspera de eleições presidenciais. Pretende antes alertar para os efeitos de sermos um país que peca por amadorismo. Amadorismo esse que, se em situações normais, conduz ao aperfeiçoamento do "desenrasca", em situações graves tem efeitos devastadores.

O que falha nesta gestão da pandemia?

Falha o estudo de medidas cirúrgicas, que, por um lado seriam mais eficazes para conter a pandemia, e por outro, menos danosas para a economia.

Reparem, não se impõem os testes massivos por concelhos (com o encerramento até aos resultados), o que, pelo menos, permitiria detectar as cadeias de contágio.

Não se impõem os testes rápidos a todas as pessoas que entram em Portugal. Sabem que em alguns países emergentes se compram os testes para se poder viajar? Não será importante que a testagem seja feita à chegada? De que vale fecharem restaurantes, cafés e lojas se o vírus entra pelas fronteiras e passa concelhos livremente? Portanto mata-se a economia e o vírus continua alegremente a espalhar-se.

O Natal foi trágico por causa da abertura dos concelhos? Não digo que não (foi de facto uma imprudência não fechar os concelhos quer no Natal quer na Passagem de ano). Mas pior do que isso é a falta de controlo no aeroporto. Numa altura em que vêm pessoas de todos os lados do mundo passar o Natal a Portugal qual foi o controlo que foi feito? Pouco ou nenhum. Como é que entram as variantes do vírus do Reino Unido, África do Sul e Brasil, se não for através da entrada de pessoas que vêm do estrangeiro com o vírus?

Falta profissionalismo também na gestão dos casos de isolamento profilático (as pessoas são deixadas em casa 14 dias sem qualquer acompanhamento, sem qualquer prescrição de testes). Mas essas pessoas têm filhos que continuam a circular.

Porque se há-de demonizar os testes rápidos em farmácias? Será para agradar aos grandes laboratórios? Porque é que neste momento não há testes rápidos em todas as farmácias?

Porque não se facilita o acesso aos testes? Já nem peço que a UE suporte o custos dos testes de modo a que cheguem gratuitos à população, mas que isto não era má ideia, não era.

Em setembro, no regresso às aulas, não era de terem imposto a testagem nessa altura? Só quando quiseram manter as escolas (em janeiro) é que se lembraram dos testes rápidos nas escolas?

Porque razão se há-de fechar as praias (quando já se sabe que o mais eficaz contra o vírus é o sol e a sua vitamina D)? Porque se fecham os paredões, os jardins e os campos de ténis - e outros - ao ar livre? Qual o efeito prático disso na contenção da pandemia? Porquê proibir os cafés ao postigo? Qual a racionalidade disso quando antes as pessoas ficavam numa fila gigante para ir ao supermercado antes do fecho imposto às 13 horas?

Porque se há-de fazer um encerramento cego de tudo? Só para agradar a comentadores e à indignação do Twitter?

Medidas que têm um custo muito elevado (porque a pobreza provocada pelo lockdown levará décadas a desaparecer) têm de ser tomadas com base na racionalidade o mais científica possível, de modo a só fechar aquilo que é mesmo uma zona de risco e deixar a funcionar o que tem pouco efeito prático na contenção da pandemia.

Nem tudo é mau. Algumas coisas são de elogiar. Como por exemplo o teletrabalho obrigatório.

Mas já os transportes públicos deviam ser como os restaurantes, e terem um número limitado de lugares disponíveis. No entanto andaram a abarrotar o ano todo, como sempre.

Para já não falar na dificuldade que é a vacinação em Portugal, em comparação com outros países.

Correr atrás do prejuízo é o maior pecado português e agora mais do que nunca são visíveis as consequências dessa característica cultural.

Falemos agora do impedimento do ensino online? Diz o Governo que é para não cultivar o fosso social entre os mais ricos e mais pobres (esta mania da esquerda de nivelar por baixo).

Deixo aqui um post publicado no Facebook, que relata mais uma vez o problema do amadorismo português em relação a isto das escolas.

Portugal precisa de 15 dias, para conseguir dar aulas à distância num país de 10 milhões de habitantes. "Aqui no Reino Unido com 65 milhões, Boris Johnson , que a imprensa tanto gosta de gozar, fê-lo num dia".

"Qual é a diferença? Tudo foi antecipado, professores receberam treino de Microsoft Teams, as escolas organizaram a aquisição de laptops ou tablets para os alunos que não tinham qualquer meio. Foram criadas escalas de serviço entre professores para receberem um reduzido número de alunos vulneráveis ou filhos de trabalhadores essenciais (saúde, polícia etc).
Na escola onde trabalho, até se organizou a recolha e distribuição de alimentos para alunos carenciados.
Não se esperou para fechar escolas e depois reagir. Preparou-se a eventualidade com semanas, se não meses de antecedência.
Estamos a chegar ao primeiro ano de pandemia e o incompetente governo do indigente intelectual Costa não se preparou, e continua sem se preparar. Precisa de 15 dias para tentar ganhar tempo e sair com mais uma ideia genial, "férias de emergência" no fim terá uma amálgama de aulas a entrar pelo verão adentro.
Portugal é desgovernado aos repelōes, mais interessado em passar o tempo a atacar um deputado, a colorir bocarras com baton ou a passar leis à surra no meio da confusão institucional em que se vive, como foi o caso da lei da eutanásia.
O povo ressona, e a mancha vermelha avança".


***

Não vou atribuir uma autoria, porque não pedi autorização. Mas este testemunho dá uma ideia de como o nosso país funciona mal e é por causa disso que vamos pagar um preço muito mais alto do que os nossos pares europeus.

publicado às 16:32

Direita social, mas non troppo

Presidenciais

por Maria Teixeira Alves, em 07.01.21

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No debate para as eleições presidenciais que pôs frente a frente Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura, ambos de partidos de direita, o atual presidente frisou "somos de direitas diferentes, eu sou da direita social", tendo depois citado o Papa Francisco e Francisco Sá Carneiro.

É interessante pensar no que é isso de direita social, versus a direita do Chega. O Papa Francisco, por exemplo, que ambos citam como exemplo, preocupa-se com os "descamisados", mas também com todos os outros. Incluindo os ricos, os privilegiados, as forças de segurança, os conservadores, os liberais, os socialistas, os comunistas, etc. Preocupa-se tanto com os republicanos, como com os democratas dos EUA, de forma igual e sem qualquer juízo de valor. O Papa Francisco preocupa-se com todos. Mas não cede às ideologias que tentam impôr que não há dois sexos (homem e mulher) que defendem não se pode "dizer Amen, sem dizer Awomen", nem às ideologias que vêem nas minorias "os fracos e oprimidos" e nas maiorias "os carrascos". Nem se preocupa em manter quotas disto ou daquilo. A direita social não discrima ninguém mas também não nega as diferenças que a natureza impôs (diferença é diferente de superior ou inferior). 

Direita social é defender tanto os moradores dos bairros degradados, como os moradores da Quinta da Marinha. É defender os pobres, mas também é defender os donos de restaurantes e de outros negócios que ficam sem poder operar de cada vez que se fecha a economia. Porque Marcelo não defende que se estude uma solução para impedir o desastre económico que o lockdown acarreta? Os testes rápidos; a imposição de testes obrigatórios à chegada ao aeroporto; os teste em massa; o encerramento de concelhos, porque não?

Porquê fechar lojas, restaurantes, cafés, livrarias. Porquê? Não está já demonstrado que o contágio se faz em ambiente familiar muito mais do que nos espaços públicos? Basta ver que se fechou a Passagem de Ano e se deixou o Natal livre (que é em casa e em família) e está à vista o resultado.

Marcelo Rebelo de Sousa defende os mais necessitados. Muito bem. Moralmente é irrepreensível. Mas como não há milagres, estamos a ponto de esse conceito se generalizar aos "privilegiados" de antigamente, e Marcelo contribuiu para isso ao fazer o encerramento cego da economia. Isto demonstra que boas intenções temos todos, mas nem sempre isso é garantia de grande beneficiência.

Sobre André Ventura o que eu acho é que é um utópico. Tem boa presença, autoconfiança, mas o que defende é absolutamente irrealista.

 

publicado às 22:43

Direita social, mas non troppo

Presidenciais

por Maria Teixeira Alves, em 07.01.21

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No debate para as eleições presidenciais que pôs frente a frente Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura, ambos de partidos de direita, o atual presidente frisou "somos de direitas diferentes, eu sou da direita social", tendo depois citado o Papa Francisco e Francisco Sá Carneiro.

É interessante pensar no que é isso de direita social, versus a direita do Chega. O Papa Francisco, por exemplo, que ambos citam como exemplo, preocupa-se com os "descamisados", mas também com todos os outros. Incluindo os ricos, os privilegiados, as forças de segurança, os conservadores, os liberais, os socialistas, os comunistas, etc. Preocupa-se tanto com os republicanos, como com os democratas dos EUA, de forma igual e sem qualquer juízo de valor. O Papa Francisco preocupa-se com todos. Mas não cede às ideologias que tentam impôr que não há dois sexos (homem e mulher) que defendem não se pode "dizer Amen, sem dizer Awomen", nem às ideologias que vêem nas minorias "os fracos e oprimidos" e nas maiorias "os carrascos". Nem se preocupa em manter quotas disto ou daquilo. A direita social não discrima ninguém mas também não nega as diferenças que a natureza impôs (diferença é diferente de superior ou inferior). 

Direita social é defender tanto os moradores dos bairros degradados, como os moradores da Quinta da Marinha. É defender os pobres, mas também é defender os donos de restaurantes e de outros negócios que ficam sem poder operar de cada vez que se fecha a economia. Porque Marcelo não defende que se estude uma solução para impedir o desastre económico que o lockdown acarreta? Os testes rápidos; a imposição de testes obrigatórios à chegada ao aeroporto; os teste em massa; o encerramento de concelhos, porque não?

Porquê fechar lojas, restaurantes, cafés, livrarias. Porquê? Não está já demonstrado que o contágio se faz em ambiente familiar muito mais do que nos espaços públicos? Basta ver que se fechou a Passagem de Ano e se deixou o Natal livre (que é em casa e em família) e está à vista o resultado.

Marcelo Rebelo de Sousa defende os mais necessitados. Muito bem. Moralmente é irrepreensível. Mas como não há milagres, estamos a ponto de esse conceito se generalizar aos "privilegiados" dos antigamente, e Marcelo contribuiu para isso ao fazer o encerramento cego da economia. Isto demonstra que boas intenções temos todos, mas nem sempre isso é garantia de grande beneficiência.

Sobre André Ventura o que eu acho é que é um utópico. Tem boa presença, autoconfiança, mas o que defende é absolutamente irrealista.

 

publicado às 20:59

Da série frases que fazem sentido recorrentemente

por Maria Teixeira Alves, em 16.12.20

""Melhor ter amado e perdido

Do que nunca ter amado.”

– Alfred Tennyson

publicado às 01:32

O grande mal da humanidade

por Maria Teixeira Alves, em 11.12.20

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publicado às 01:00

Na mouche

por Maria Teixeira Alves, em 05.12.20

"Os Portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe...”

Eduardo Lourenço de Faria

publicado às 00:16

Paulo Guilherme diz que vendeu unidades do Montepio com "prejuízo"

O Banco Montepio é hoje uma equação impossível. Como limpar o balanço, crescer o negócio sem capital? 

Se a flexibilidade do BCE para o capital regulatório, no fim da crise, acabar, como é que o Banco Montepio vai reconstruir as almofadas de capital regulatório? É uma quadratura do círculo.

A Associação Mutualista tem 600 mil associados que têm aplicações em produtos de poupança, cujo o ativo que os alimenta é o banco. Logo o Banco Montepio não pode ser vendido. A maioria do capital do banco tem sempre de ser da Mutualista.

Mas se for preciso um aumento de capital a Mutualista não tem dinheiro para subscrever. Como é que se resolve este enigma? 

Como se capitaliza o Banco Montepio e se prepara o banco para o que vem aí?

Se o banco for resolvido não são apenas os credores do Banco que perdem tudo, são também os mutualistas, que são os acionista do banco, são os reformados que têm os produtos de poupança regulados pela Segurança Social e que ficam sem nada.

Agora se percebe o erro que foi a oposição política (do Bloco mas não só, a direita também alinhou, incluindo Rui Rio) à entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do banco. Um erro colossal, que vai custar caro e que ninguém nunca vai admitir.

Todos os que impediram, com todas as forças, a entrada da Santa Casa da Misericórdia com 200 milhões no Banco Montepio ponham a mão na consciência, porque ali podia estar a salvação da instituição. Se a Santa Casa fosse acionista e injetasse dinheiro no Banco Montepio, o banco teria sempre alguém que capitalizasse a instituição financeira. O banco teria dinheiro para limpar o balanço e podia crescer a atividade e até dar lucros que justificassem o investimento da Santa Casa.

Mas há ideias boas que são condenadas por preconceitos ideológicos. Portugal é sempre muito mais eficaz a criar bloqueios do que a criar soluções. E assim nunca saímos da cepa torta e qualquer mudança é sempre para pior.

Não nos fiquemos por aqui. A situação do banco representar 80% dos ativos da Mutualista também é uma factura a passar aos governos (aos ministérios da segurança social) que o permitiram. Assim como os DTA (ativos por impostos diferidos) que o Ministério das Finanças permitiu para recapitalizar contabilisticamente a Mutualista, ainda seja parca a possibilidade de existência de lucros futuros que justifiquem esses créditos fiscais. Tudo coisas que não devem ficar esquecidas se o futuro do Banco Montepio não correr bem (e esperemos que não aconteça o pior). 

Nessa altura, onde vão estar os críticos que atiraram pedras aos governos que foram contemporâneos dos casos BES e Banif?

O tempo ainda nos revelará como a oposição à entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital do Banco Montepio foi um erro crasso. Mas na altura vai tudo assobiar para o lado e acusar quem mais for mais conveniente e estiver mais à mão.

 

publicado às 22:47

Recurso à máscara propaga-se pela Europa no contra-ataque à Covid-19 |  Euronews

Em 1997, quando eu era uma romântica vintage, fui a Cuba. Foi uma experiência humana única na altura. Nunca tinha estado num país onde, desde 1959, o seu povo não podia sair do país, nem aspirar a ter bens (como carro, ou casa) não podia aspirar a subir na vida, não podia planear viajar. A Cuba de Fidel punha os cubanos a viverem o dia-a-dia sem aspirações.

Na altura achei fascinante a experiência de conhecer um povo aparentemente feliz só por ser independente do capitalismo. As frases pintadas nas paredes eram programáticas, "aquí no queremos amos". Mas essa felicidade do povo era aparente, porque na prática os cubanos pediam-nos em casamento para poderem sair do país e ficavam dentro de água, nas praias que estavam proibidos de frequentar, o dia inteiro, só para venderem aos turistas um jantar de lagosta em sua casa por 10 dólares. Eram os restaurantes privados possíveis. Tudo era do Estado. "Pobre pero del Estado".

Lembro-me de reparar que as cubanas assistiam a novelas mexicanas (proibidas pelo Fidel porque criavam sonhos) em que o enredo era composto por grandes milionários e mulheres que casavam ricas e ficavam donas de fazendas. As cubanas suspiravam, não tanto pelas histórias de amor, mas pela possibilidade de ficar rica de um dia para o outro. Era uma coisa que só em sonhos podiam aspirar.

Serve isto para dizer que hoje, quando vejo filmes ou séries, sejam eles dos anos 80, 90, 2000 ou de 2019, sinto-me a ver uma ficção, um filme datado, uma realidade anacrónica. Tudo desconfinado, sem máscara, aeroportos cheios, grandes convívios, restaurantes cheios, conversas animadas a menos de 2 metros de distância, beijos, abraços. Parece uma realidade do século passado, algo que ficou lá atrás e que só em sonhos podemos aspirar.

Finalmente compreendi os cubanos da Cuba dos anos 90, quando aspiravam à liberdade de terem sonhos. Sinto a mesma nostalgia que as cubanas do regime do Fidel. Nostalgia de um tempo que nos parece longíquo e que não sabemos se volta a ser o que um dia já foi.

publicado às 22:29

SIC Notícias | OE 2021. Catarina Martins pede sinais mais claros ao PS

A Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, deu uma entrevista ao Polígrafo na SIC e o seu discurso está carregado de equívocos. 

Desde logo põe o cerne da questão no "não se conhecem as imparidades do Novo Banco. Ninguém fiscaliza as imparidades do Novo Banco". Ora isto é mentira. Todos os bancos são obrigatoriamente auditados anualmente e nessa auditoria estão as imparidades para crédito ou outros ativos, e os bancos seguem as regras internacionais de registo de imparidades. Portanto as imparidades são auditadas anualmente e até são muitas vezes reforçadas a pedido das auditoras. Já agora as auditoras são supervisionadas pela CMVM.

É preciso não esquecer que as imparidades foram criadas mundialmente para proteger os bancos do malparado. Catarina Martins parece achar que as imparidades são umas coisas muito complicadas que servem para roubar o Estado.

"O Estado faz um contrato com autênticos gangs financeiros", diz a líder do partido que suportou parlamentarmente a subida ao poder do Governo que permitiu assinatura do contrato de venda do Novo Banco ao Lone Star. Não fosse isto já só por si hipócrita ainda fala em "gestão danosa" do Novo Banco, apesar de a própria PGR (entidade que avalia se há gestão danosa ou não) ter concluído que não há qualquer motivo para uma investigação nesse sentido.

Às páginas tantas diz que agora "há novos indícios". Não, não há, há o cumprimento dos contratos assinados em 2017, como sempre houve. 

Depois de condicionar a aprovação do Orçamento de Estado para 2021 à não inscrição da verba, contratualmente definida, de empréstimo anual do Estado ao Fundo de Resolução (cujo o tecto são os 850 milhões), eis que a líder do Bloco de Esquerda quer que o Estado proíba o Fundo de Resolução de injetar qualquer verba no Novo Banco, violando o que está contratado entre o Fundo de Resolução e o Novo Banco, e pondo em risco o cumprimento do contrato entre o Estado e a DG Comp de Bruxelas, que impôs remédios ao Novo Banco no acto da venda. 

Em primeiro lugar o Estado não pode romper um acordo entre duas entidades em que nenhuma delas é o Estado. O FdR é do Banco de Portugal e o Novo Banco é da Lone Star.

Em segundo lugar, se Catarina Martins espera que o Estado vá "crescer" para Bruxelas e violar acordos, ainda para mais numa altura em que o país espera fundos europeus para se reestruturar, bem pode esperar sentada.

O que diz a senhora? Diz que é contra a existência do Fundo de Resolução, porque é o Estado que empresta ao Fundo e porque os bancos canalizam a contribuição especial (que é um imposto) para financiar o Fundo de Resolução em vez de dar esse imposto ao Estado. Não sei como Catarina Martins espera "emendar" a criação do Fundo de Resolução? Espera exigir a sua extinção? No reino do absurdo tudo é possível, até isso.

Depois diz que quando os bancos têm problemas são os contribuintes que pagam. Mas é contra os Fundos de Resolução. Ora os Fundos de Resolução foram criados precisamente para pôr os credores, os acionistas e os bancos a pagar as resoluções. O Fundo de Resolução é uma entidade pública? É. Mas também o é o Fundo de Garantia de Depósitos, que é chamado a pagar 100 mil a cada depositante em caso de insolvência de um banco e ambos contam para o défice.

Depois diz que não quer que se injecte nada no Novo Banco até que se conheça o que se passa lá dentro. O que quer isto dizer, depois de uma auditoria especial aprovada pelo próprio Bloco? Quantas auditorias quer? Não me parece que as dúvidas da líder do Bloco se satisfaçam sem que ponha a Mariana Mortágua no board do banco. Tudo o que não for isso não serve. 

Diz ainda a senhora que as imparidades que estão a ser constituídas "são secretas" e servem para chamar cada vez mais capital ao Fundo de Resolução no âmbito do mecanismo de capital contingente. Mais uma vez é mentira. O que foi já mais do explicado, e também pela auditoria da Deloitte, é que o Acordo de Capitalização Contingente define que a realização de pagamentos pelo Fundo de Resolução ocorre caso se verifiquem, cumulativamente, perdas nos ativos abrangidos e os rácios Tier 1 ou Common Equity Tier 1 (CET1) se tornem inferiores aos níveis definidos. Deste modo, o montante dos pagamentos a realizar pelo Fundo de Resolução corresponde ao menor dos seguintes montantes: perdas líquidas acumuladas nos Ativos CCA, que em 31 de dezembro de 2018 totalizavam 2.661 milhões de euros; e o montante necessário para repor o rácio de capital do Novo Banco no nível acordado (Tier 1 de 12,75%, em 31 de dezembro de 2018 e 2017).

Ao longo da auditoria da Deloitte é explicado que os valores pagos pelo Fundo de Resolução, ao abrigo do Mecanismo de Capitalização Contingente (CCA), têm sido inferiores ao valor das perdas da carteira coberta por este mecanismo. 

Assim, para além da evolução das perdas associadas aos ativos cobertos pelo mecanismo, a eventual necessidade de pagamentos adicionais pelo Fundo de Resolução ao abrigo do CCA está dependente da evolução das necessidades de capital do Novo Banco, as quais estão condicionadas entre outros aspetos pelo resultado líquido anual, incluindo as perdas em ativos (incluídos ou não no CCA); por outros movimentos que afetam fundos próprios (desvios atuariais em responsabilidades com pensões, valorização de instrumentos de rendimento variável, etc); por efeitos de transição em fundos próprios (Phased-in, IFRS 9); e pela evolução dos requisitos de capital (requisitos Pillar 2, capital conservation buffer e other systemically important institutions capital buffer). Tal como explica o relatório da Deloitte, que a Catarina Martins diz que nada investiga.

A este respeito, com base no Relatório e contas de 2019 o rácio mínimo de Tier 1, com referência a 31 de dezembro de 2019, é de 13,51%, o que representa um aumento absoluto de 0,76% dos requisitos de capital regulamentar para o Novo Banco. A Deloitte acrescenta mesmo que de acordo com o Relatório do Agente de verificação (Oliver Wyman) referente ao ano de 2019, datado de 6 de maio de 2020, este aumento representa uma necessidade adicional de capital de cerca de 200 milhões de euros.

Já chega de ignorantes úteis. Todos nós sabemos que o Bloco de Esquerda cresceu muito à custa das comissões parlamentares de inquérito aos bancos e que precisam delas para fazer prova de vida.

A boa notícia é que Catarina Martins não vai conseguir destruir o Novo Banco, nem pôr em causa os depositantes, nem criar um risco reputacional que ponha os juros soberanos a subirem, nem vai criar uma situação de ruptura entre o Estado e Bruxelas. A boa notícia é que o Bloco de Esquerda faz muito barulho mas não governa o país. Graças a Deus.

 

publicado às 00:30

 

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Já todos sabemos que o Novo Banco herdou ativos maus que não o pareciam ser (dívidas e imóveis) do BES. Já toda a gente sabe que a resolução em 2014 foi feita a poupar capital. Já toda a gente sabe que a venda do banco salvou a sua existência e que para vender o banco foi preciso aceitar aquelas condições de capitalização contingente.

O que eu estava à espera era que os deputados se indignassem com a lentidão do processo de insolvência do BES. O banco ainda não está liquidado nem vai estar tão depressa. Isso sim seria motivo de uma comissão. A saber: O tempo em que se arrastam estes processos. A morosidade da justiça merecia várias comissões de inquérito.

Portugal parece uma caricatura. Vejamos. Em Espanha o Banco Popular foi resolvido e comprado pelo Santander. Na altura originou uma polémica pública, mas hoje já não se fala do assunto. Já nós estamos desde 2014 a mastigar a resolução do BES e a criação do Novo Banco. Sucedem-se comissões de inquérito, COF e auditorias.

O que faz de nós uma figura trágica.

Como é que queremos aproveitar os milhões da Europa para nos modernizarmos quando a regra é a estagnação? Somos óptimos a criar entropias. 

Repare-se, há duas semanas saiu a notícia que o CaixaBank e o Bankia estavam a estudar uma fusão. Amanhã já vão assinar um acordo. Em Portugal não se consegue vender o EuroBic, nem o Banco Efisa, nem o BPG. Uma fusão era coisa para ficar decidida lá para 2025.

Em Portugal a OPA da China Three Gorges sobre a EDP durou mais de um ano e acabou retirada. Os negócios morrem de morosidade. Nada se concretiza. Há guerras e batalhas a enfrentar em cada iniciativa.
E vamos lá a ver se é desta que a Média Capital se vende sem obstáculos. 

Somos um caso perdido.

publicado às 01:54



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