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Ventura e Martins...e a liberdade de expressão

por António Canavarro, em 18.07.17

Oscar Wild um dia escreveu: “se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo.”

 

Cito o poeta, dramaturgo e escritor irlandês porque os últimos tempos o que não falta por ai são frases mal interpretadas. Hoje, como escreve Roberto Calasso, a sociedade é vista “como um emaranhado de opiniões” e de pareceres que, como dizia um pensador grego, Simónides de Quéos”,”viola a verdade”. E, ao que parece, vivemos na ditadura da verdade, i.e., como necessidade de proteger os mais fracos, as minorias. Se falarmos bem delas estamos na crista da onda, caso contrário somos crucifixados na praça pública. Por outro lado, recorrendo ainda a este ensaio de Calasso, é importante sublinhar que “a história do óbvio é a história mais obscura”, e acrescenta: “não há nada mais óbvio do que a opinião”!

 

Qual é então o problema de André Ventura, candidato do PSD/CDS-PP ter dito numa entrevista ao "i"  que "Os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado"? Caiu o Carmo e a Trindade. O estrondo teve a mesma amplitude do que as declarações óbvias – para muitos desnecessárias – de um velho médico, Gentil Martins, quando criticou o comportamento de Cristiano Ronaldo quando afirmou que é "degradante" um homem solteiro ter filhos recorrendo a uma barriga de aluguer. O mesmo conhecido cirurgião, e a propósito da homossexualidade " disse que se trata de “uma anomalia, um desvio da personalidade". Atitude que levou a que duas médicas apresentassem queixa do médico junto da respectiva Ordem.

 

Em ambos os casos, duas pessoas conectadas com a direita, e portanto estruturalmente conservadoras, terão dito o óbvio. Um criticando uma etnia minoritária, os ciganos, e outro os comportamentos desviantes do nosso melhor jogador de futebol de sempre: de facto não é muito normal que alguém, na legítima vontade de ser pai – o que ninguém o condena – recorra a um processo criticável para o fazer, subentendendo nas entrelinhas que ele o acusa – não obstante de aparece nas revistas cor-de-rosa rodeado de beldades – de ser homossexual.

 

Seja como for, ambos dizem o que uma maioria silenciosa pensa mas não o diz!

 

Do meu ponto de vista, porque também tenho o direito às minhas opiniões, há três pontos que gostaria de destacar: a) o candidato foi infeliz no seu comentário porque pôs no mesmo saco toda uma comunidade, mesmo que a meu ver os ciganos gostem de ter um estatuto próprio numa sociedade que deveria ser inclusiva. Isso é impossível quando os ciganos, como os seus preceitos, são tudo menos inclusivos, e em muito casos são marginais? b) A homossexualidade não é a norma. A norma é a natureza, ou seja, a heterossexualidade. Porém não é verdade que a propósito do que norma e do que é “anormal” que foram cometidos os maiores crimes contra a humanidade. Finalmente, c), não deixa de ser caricato que as reacções estas duas opiniões foram vinculadas pelos partidos situados à esquerda, e nomeadamente o Bloco de Esquerda. Não foram os partidos da esquerda, portanto anti-sistémicos que sempre – e bem, diga-se de passagem – defenderam a liberdade e opinião, tendo sofrido na pele o peso da ditadura? Enfim, a democracia e a sua proximidade ao poder tornou-os amnésicos. Deve ser isto!

 

 

PS. - Exma. Senhora Deputada Catarina Martins e afins, se fosse dos vossos eu faria um projecto lei que obrigasse à alteração de certos provérbios portugueses, proibindo por exemplo aquele que diz "um olho no burro, outro no cigano". Fica a ideia. Ofereço-a de borla.

Cumprimentos democráticos!

 

 

 

 

 

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publicado às 13:06




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