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Só eu é que acho que há um paradoxo entre estas duas sentenças?

"EN236 só foi fechada depois de se saber das mortes [a GNR não fechou a estrada porque não recebeu ordens para isso]"

e

"Primeiro-ministro mantém confiança política na ministra da administração interna"

Ou entre estas: 

O ministro da Defesa, Azeredo Lopes, disse em Castelo Branco que assume a "responsabilidade política" após o furto de material de guerra em Tancos pelo "simples facto de estar em funções". 

e

Pedro Nuno Santos "As demissões têm muitas vezes consequências perversas”.  "Não se devem misturar incêndios e Tancos. Nem fazer rolar cabeças”.

Em Tancos o caso de incompetência é tão grande que até já veio o Chefe de Estado-Maior do Exército, o General Rovisco Pais em salvação do Governo dizer que aos deputados que assumia as responsabilidades do assalto ao paiol de Tancos, ilibando totalmente o poder político pelo sucedido dizendo "todas as responsabilidades pelas falhas de segurança foram militares".

 E isto a espuma dos nossos dias. Os políticos a dizer como devemos pensar. Devemos não pedir explicações ao Governo, não pedir a demissão dos Governantes perante a morte cruel e excusada de 64 pessoas em Pedrógão e perante o enorme assalto de material de guerra nas barbas dos militares, que nem se davam ao trabalho de guardar o paiol.  Devemos sim criticar o líder da oposição porque sim, e ridiicularizar Cristas só porque é mulher e pede demissões descaradamente deste Governo imaculado pelo detentores do poder de formar opinião.

O Governo já nem se mexe com as críticas da imprensa ou de opinion makers, só as tiradas de Marcelo o levam a fazer comunicados e a explicar-se. Foi o estado a que chegámos.

A notícia de que o primeiro-ministro tinha ido de férias, em plena crise do furto de armas de guerra em Tancos e após o trágico incêndio de Pedrógão Grande, foi avançada pelo jornal i, e é desde essa altura o tema da atualidade.

António Costa e o Governo admitem os erros todos, mas depois "mantém a confiança"; "não se deve fazer rolar cabeças", etc

Pior, o primeiro-ministro até se deu ao luxo de ir de férias. Para não ter que ser confrontado com a demissão do ministro da defesa, como foi com a ministra da administração interna.

Quando explicou a resposta ainda foi mais hilariante. Resposta: "As férias de António Costa já tinham sido planificadas e que o chefe do Governo está sempre contactável”.

Ena! Ninguém diria que em pleno século XXI o primeiro-ministro, tal como qualquer pessoa, não estivesse contactável.

“O Governo, tendo em consideração o período de Verão, organizou e planificou em tempo o período de férias do primeiro-ministro, bem como dos restantes membros do Governo, de forma a garantir as necessárias substituições para assegurar o normal funcionamento do Governo”, disse o chefe do Governo na nota divulgada aos jornais.
O primeiro-ministro ainda atira com o direito legal às férias: “Neste quadro, o primeiro-ministro encontra-se no gozo de uma semana de férias, sendo substituído na sua ausência, nos termos do artigo 7º da Lei Orgânica do XXI Governo, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. O primeiro-ministro está sempre contactável e disponível em caso de necessidade.” disse,

A notícia de que o primeiro-ministro tinha ido de férias, em plena crise do furto de armas de guerra em Tancos e após o trágico incêndio de Pedrógão Grande, foi avançada pelo jornal i, e é desde essa altura o tema da atualidade.
 
Isto é tão caricato que foram mais uma vez os jornais espanhóis a pôr o dedo na ferida. 

Os jornais espanhóis é que chamaram o tem da fragilidade do Governo com a tragédia de Pedrógão (El Mundo)

Os jornais espanhóis é que deram a lista exaustiva da enorme lista de armas de guerra roubadas nas barbas do exército no paiól de Tancos (El Jornal)

E são mais uma vez os jornais espanhóis que põem a nú o ridiculo num artigo irónico (El País):

O jornalista começa o artigo por lembrar que Portugal é o terceiro país mais pacífico do mundo, para logo sublinhar, que é “tão pacífico” que na semana passada “uns estranhos foram à base militar de Tancos e levaram num carro armas sem que ninguém os impedisse”.

“Desde há cinco anos, Tancos, situada 120 quilómetros a noroeste de Lisboa, tem o sistema de videovigilância avariado, os sensores de movimento também não se mexem, a vedação não aguenta uma tesourada, e as 25 guaritas estão de tal forma devolutas que é melhor que nenhum soldado arrisque nelas a sua vida”, prossegue em tom irónico.

O correspondente do El Pais faz notar a seguir que os militares a quem cumpre passar ronda às instalações “vão rezando para que nada os ataque porque só se poderiam defender de uma cacetada”.

Em seguida, Javier Martín dá como certo que “os assaltantes chegaram num camião, fizeram um buraco na rede e foram até uma vintena de paióis mas só entraram naqueles onde estava o material de que necessitavam”. “Até no frigorífico lá de casa demoram mais tempo a encontrar os iogurtes”, escreve o jornalista.

“Depois de conhecer o Exército que cuida de Tancos, se Portugal não ficar em primeiro lugar no índice Global de Paz em 2018, será uma injustiça de pegar em armas”, conclui o jornalista.

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publicado às 03:00

No reino da desordem

por António Canavarro, em 06.07.17

 

 

Vivemos em desordem. Aliás "ordem" não é uma característica portuguesa. Se isso fizesse parte do nosso código genético a nossa história teria sido escrita de forma diferente, muito provavelmente não teria existido uma horrenda guerra civil, a Primeira República teria corrido às mil maravilhas e logo não teria havido Estado Novo nem nada do que se seguiu. Éramos um país maravilho.

Porém a história é feita de factos em que a genética faz das suas, pelo que perante os factos não há nada a dizer!

Acrescento ainda uma outra característica dos portugueses: são mandados e gostam e precisam de ser mandados. E, sobretudo, precisam de ser mandados! Veja-se por exemplo a forma como os nossos emigrantes são visto: em todo o lado a ideia generalizada é que o português é um excelente trabalhador. É bem mandado! Por cá a cantiga é outra. Se não são mandados eles ficam à nora. Não sabem como fazer e, tampouco, sabem porque as coisas acontecem.

Há dois bom exemplos que servem na perfeição na retratação do nosso povo, e sobretudo por as consequências são trágicas, servindo inclusive para chacota internacional, falo do assalto a Tancos - e note-se, todavia, que situações parecidas, ligadas ao crime internacional também já ocorreram, disse-me ontem um amigo militar, em França e na Alemanha – e, por outro lado, como acabo de ler no Sapo, a “GNR não recebeu qualquer "decisão operacional" sobre a necessidade de encerramento da Estrada Nacional 236-1 durante o incêndio que deflagrou a 17 de junho em Pedrogão Grande, tendo encerrado esta via após a localização de vítimas mortais.”

Pois é; não receberam ordem! Não receberam ordens porque o “malvado” SIRESP não possibilitou o “envio” dessa ordem, e os militares não fecharam a estrada levando à morte dezenas de portugueses, e por outro lado tal acontece, porque como tem que ser mandados, a Guarda Nacional Republicana não tem autonomia suficiente para actuar conforme situações que lhes pareçam urgentes. Ou seja, tanto eles, e sobretudo os que mandam, deveriam de saber que às vezes é melhor prevenir do que remediar. E assim, tanto em Pedrogão como em Tancos – as câmaras de segurança estão desligadas há dois anos – as coisas acontecem por falta de ordem e muito desleixo. Seja como for a culpa – já que passamos o tempo a sacudir a água do capote -há-de morrer solteira.

 

Termino isto com um registo de humor, de humor que ainda consegue salvar alguma coisa, citando Pedro Silva Pereira: “Se a estrada 236 não existisse aquelas pessoas não tinham morrido”!

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publicado às 17:35

Do peido do Salvador às reações da populaça

por António Canavarro, em 04.07.17

As pessoas com a mesma energia que saudaram Salvador Sobral pelo seu inesperado, mas merecido sucesso na edição deste ano na Eurovisão, levando bem alto a música portuguesa reagiram em cardume, como devoradores tubarões, porque esta ingénua criatura, pouca dada a heroísmos instantâneos, disse, no concerto solidário com as vítimas dos incêndios de Pedrogão Grande, “(...) sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que é que acontece.”

O Salvador, em Kiev, como Éder, em Paris, ganharam, de um momento para o outro, como que caído do céu, o estatuto de vedetas. Éder está desaparecido. E Salvador diz o que disse, pese embora já tenha pedido desculpas: “Peço desculpa se ofendi alguém, sinceramente. Não era a minha intenção, nunca foi".

 

A propósito deste momento folclórico, escreveu, no  Público, João Miguel Tavares, : “Salvador Sobral, 27 anos, é um homem desconcertante e profundamente incomodado com a absurda fama que se abateu sobre ele, por causa de uma canção simples composta pela sua irmã.” E, sobretudo acrescenta: “Salvador não tem nada que pedir desculpa. Tem apenas de aprender, como Nietzsche há muito nos ensinou, a beber de um só trago as tempestades que é capaz de criar.”

Tavares está coberto de razão. Salvador tem idade para crescer e ter mais cuidado com tempestades. Tempestades que o Povo adora. Pedrogão Grande foi uma tragédia terrível, que ceifou vidas humanas – caso fosse só árvores era tão somente mais um fogo florestal. E o português adora isto. O português deve ser um povo bipolar: Vai da alegria suprema, as vitórias no Euro e na Eurovisão, à tragédia de Pedrogão, num pulo: abraçam-se na alegria como no luto com o mesmo entusiasmo. Gostam de sentir uns pobres coitados. E nesse limite acham que a piada mal-cheirosa de Salvador Sobral não teve graça. É claro que não teve. Ele só lá estava, no Meo Arena, porque é uma estrela instantânea. Só isso!

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publicado às 16:10

Balanço do Governo de António Costa (em traços gerais)

por Maria Teixeira Alves, em 02.07.17

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Em traços gerais:

Brexit ajuda a economia portuguesa porque aumentou a tolerância dos parceiros da UE ao défices excessivos.

Ameaças terroristas na Europa ajudam turismo português

Turismo salva economia portuguesa

Défice melhora, dívida continua lá e aumenta.

Juros da República começam por subir, mas já estão a melhorar

Banca: capitalização da CGD e nada mais porque o resto não foi feito pelo Governo, nem a capitalização do BCP, nem a OPA do BPI, nem a venda do Novo Banco (e nem a potencial venda de parte do Montepio). Malparado não vai ter solução nacional.

Lesados do BES serão pagos em parte (mas quem paga? Provavelmente o Estado, quando as ações em Tribunal, trocadas por dinheiro, forem perdidas).

Reversão da venda da TAP, e venda noutras condições em que são salvos lugares no board para o Estado

Falha do Siresp e das forças de combate aos fogos florestais de Pedrogão Grande, morrem 64 pessoas, a maioria numa estrada nacional para onde foram encaminhadas pela GNR. Ninguém se responsabiliza.

Assalto e roubo, cuja lista é infindável, de material de guerra que ocorreu na semana passada nos Paióis de Tancos.  O ministro da Defesa afirmou em Castelo Branco que assume a "responsabilidade política" após o furto de material de guerra em Tancos pelo "simples facto de estar em funções". Mas não se demite.

O exército não sabe explicar o que aconteceu, nem porque é que falhou a segurança. Escondeu a lista do material roubado, mas eis que sai a lista num jornal espanhol. O Chefe das forças armadas, o Presidente da República, lá pediu investigações exaustivas para apurar responsabilidades.

P.S: o melhor deste Governo é capaz de ser mesmo o Simplex.

Bom e não estou a ver muito mais, mas corrijam-se se estiver enganada :)

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publicado às 23:49

Do gene canhoto às cambalhotas

por António Canavarro, em 28.06.17

Nem sempre estou a par das notícias, sejam elas importantes ou folclóricas. E folclore tem um leitura imediata, cultural, i.e., vinda das nossas raízes ou metafórica. E a notícia – lida na página de um amigo no Facebook, é disto que se trata: de folclore, já que na realidade não interessa - serve somente para um “momento jornalístico” e é sobretudo uma cambalhota, aliás mais uma no percurso político de quem afirmava ter um gene canhoto, bem patente quando militou no Bloco de Esquerda. Joana Amaral Dias parece um ginasta olímpica!

Fiquei espantado por ela, após uma aventura pela coligação Agir, nas legislativas de 2015, ser é a candidata do Nós, Cidadãos! à presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

O filósofo francês Pascal dizia que “quem não mudou de ideias é porque provavelmente não teve nenhuma”, e com o qual estou de acordo. Percebo, por exemplo, que Zita Seabra tenha deixado a ortodoxia comunista, porque viu a realidade sob um outro olhar. Mostrou, a meu ver, inteligência e oportunidade. Optou pela social democracia. No entanto, com este ziguezaguear Amaral Dias, além de ser – e para mim é o que isto significa – puro folclore, e mais uns minutos de fama – tal como quando se despiu para uma revista – reflecte uma imagem de oportunismo que só serve para desgastar a imagem da classe política, e desde logo a sua: se fosse eleitor em Lisboa – e inclusive tinha em boa conta o Nós, Cidadãos! - não lhe daria o meu escrutínio: ela não transmite nenhuma coerência e tampouco credibilidade!

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publicado às 12:27

Da opinião e das ideias: um retrato.

por António Canavarro, em 27.06.17

A respeito do que tenho lido um pouco por todo o lado, faço esta reflexão, a que intitulei "Da opinião e das ideias: um retrato."

 

 

Roberto Calasso, ensaísta e ficcionista florentino, em “Os quarenta e nove degraus”, escreve: “A história da opinião é a história mais obscura. Não há nada mais óbvio do que a opinião”, acrescentando, no entanto, que “os vastos pastos da opinião são o orgulho da civilização” e que a “opinião é acima de tudo um poder formal, um virtuosismo que aumenta constantemente, que ataca todos os materiais” (Livros Cotovia, 1996).

Um dos grandes críticos da opinião foi Karl Kraus (1874-1936), para quem “a opinião pode falar de tudo, mas não pode dizer tudo”, acrescentando que – e desde sempre - o órgão oficial da opinião é a imprensa. Hoje, graças aos diversos desenvolvimentos tecnológicos, a opinião está disseminada na globalidade que as rede da comunicação, e em particular nas redes sociais, possibilitam. Opina-se em todo o lado!

 

A referência a este dramaturgo, jornalista, ensaísta, aforista e poeta austríaco, tem, neste contexto, importância, porque serviu-se da “Die Fackel”, revista por si fundada, “para criticar os compromissos, as injustiças e a corrupção, e muito em particular a corrupção da língua”. Para Kraus, “qualquer pequeno erro na escrita é responsável pelas grandes tragédias no mundo. Assim, via na falha de uma vírgula um sintoma de que o estado do mundo permitiria uma guerra mundial”.

Esta referência parece-me ter importância num contexto tecnológico onde a projecção da palavra é global. Provocando, por um lado, uma clara alteração no “ordenamento do espaço e do tempo” [Edmundo Cordeiro; 2000], espelhando o que Ernst Jünger (1895-1998) definia como “mobilização total”: “A mobilização total (…) é, em tempo de paz como em tempo de guerra, a expressão de uma exigência secreta e constrangedora à qual submete esta era das massas e das máquinas” [Ernst Jünger; 1990]. Um conceito que o pensador, arquitecto e urbanista francês, Paul Virilo, transformou em “velocidade”, ou seja, “uma concepção de um tempo de exposição (cronoscópio) da duração dos acontecimentos à velocidade da Luz” [Paul Virilo; 1995].

Daí que sejamos - à boleia desta submissão das massas e das máquinas, com consequências evidentes na “mobilização do nosso campo de percepção” - confrontados com a “ilusão do mundo” e com as mais diversas virtualidades. Sendo o exercício da crítica e da suspeita, a “tábua” para a nossa salvação. Em suma, há que saber encontrar o real, neste “palheiro” a que a realidade parece ter sido confinada. Por outro lado, a crítica supõe um postulado ético já que nos convida a (procurar) ver melhor: “por vezes basta olhar de outra maneira para ver melhor”[Paul Virilo; 1995]!

 

Num dos números da Die Fackel, Kraus escreveu: “há muitos que partilham das minhas ideias. Eu é que não as partilho com eles. Se alguém perfilha todas as minhas ideias, isso não quer dizer necessariamente que a adição resulte num todo. Mesmo que eu próprio não tivesse nenhuma das minhas ideias, ainda seria mais do que um outro que perfilha todas as minhas ideias.” Ou seja: o ser humano é sempre “mais do que a soma das nossas ideias”. Com efeito, nós, tal como Janus, temos duas faces: ora somos emissores, ora somos receptores de ideias, pelo que, a questão traduz-se realmente na falta de espírito crítico e/ou na capacidade da suspeita; na necessidade de seremos capazes de desconfiar! Por outras palavras: como nem tudo o que luz não é de ouro é preciso estarmos atentos!

 

Não se trata, porém, de um problema novo. O que é novidade é a velocidade com que as ideias se espelham. Não foi por causa da transmissão de más ideias que foram cometidos os maiores crimes contra a humanidade, e que estão na base dos movimentos totalitários nascidos no século passado? Não é por ameaças análogas que os “verdadeiros” europeístas suspiram de alívio quando uma ameaça populista perde nas urnas? Com efeito, temos que ter “bons olhos”, e sobretudo a capacidade de adaptação e de resistência para não ceder à realidade. Não é porque uns, sempre em nome de visões circunscritas da realidade, se acham no direito de inverter o mundo que devemos ceder. É esta a pedagogia. É isto que devemos transmitir aos nossos filhos, como é esta a grande missão da educação. É preciso, e sem medo, transmitir os valores em que o Ocidente se baseia. Caso contrário regredimos no tempo!

 

Ninguém está impedido de partilhar as ideias dos outros. É um direito que nos assiste. O que acontece – e isto é grave – é que vivemos presos às ideias dos outros. As ideias dos outros tem o mesmo efeito perverso do eucalipto: secam tudo o que lhes rodeia, secando a autonomia das nossas ideias. Hoje, como disse recentemente António de Castro Caeiro numa entrevista à TSF, “as pessoas não pensam em voz alta”! Acrescento: nem em voz alta, nem em voz baixa: As pessoas simplesmente não pensam!

 

Acontece, todavia, que o fenómeno não é novo. Ou seja, esta imensa preguiça intelectual não é, de facto, recente. Aliás, como dizia Alexandre Herculano, “o homem é mais propenso a contentar-se com as ideias dos outros, do que a reflectir e a raciocinar”

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publicado às 12:36

Escrito na pedra

por António Canavarro, em 27.06.17

Em ano de eleições autárquicas recordo uma citação de Abraham Lincoln para quem “um boletim de voto tem mais força que um tiro de espingarda.”.

 

Ele tem razão, pois um voto faz a diferença. No entanto, tal afirmação não o livrou de sido assassinado. Efectivamente, e mesmo em democracia, há quem ache que com tiros, bombas, etc., podem reescrever a história!

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publicado às 11:36

A pressão jornalística portuguesa ao El Mundo

por Maria Teixeira Alves, em 26.06.17

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Os jornalistas portugueses não se conformam. O El Mundo atreveu-se, tamanho desplante, a pôr em causa o Governo das esquerdas unidas. Mas que sacrilégio.

Tudo por causa do El Mundo ter noticiado na passada quarta-feira as críticas crescentes à "gestão desastrosa da tragédia" por parte do Governo do primeiro-ministro António Costa, prevendo até "o fim da carreira política" do governante português. No mesmo artigo, o jornal espanhol refere ainda que as principais reivindicações têm recaído "em particular" sobre a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa.

O artigo desta quarta-feira, intitulado "Caos no maior incêndio da história de Portugal: 64 mortos, um avião fantasma e 27 aldeias evacuadas", pretende fazer um rescaldo da situação em Portugal ao quarto dia do incêndio em Pedrógão Grande. São ainda apontadas falhas "na coordenação das autoridades, tanto a nível dos trabalhos de extinção, como da comunicação com os media".

Eis que de repente há investigações e denúncias ao jornalista (imagine-se). Queriam identificá-lo para o ostracizar? Para o banir? Para descobrir algum podre que o desacreditasse? Descobrem que não o descobrem e com tamanha lata questionam o El Mundo, como se o jornal não tivesse competência para escolher jornalistas, ou para decidir a credibilidade das reportagens que publica.

Mas o conteúdo da notícia é falso? Isso nem é tema.

O importante é expô-lo na praça pública. Os portugueses queriam queimá-lo na fogueira do mediatismo. Mas lamentavelmente não têm uma cara para acusar, um cadastro, um currículo. Querem obrigar o jornal a revelar o culpado de ter criticado um governo de esquerda. O El Mundo não sabe que isso é imperdoável a um jornalista em Portugal.

Chega ao cúmulo de os jornalistas portugueses, representados pelo Sindicato, pedirem explicações a um jornal espanhol, fundado em 1989 e que vende mais do que o Correio da Manhã  (vou rever a minha condição de sindicalizada), e que não recebe lições dos jornalistas portugueses. Quem é o jornalista que assina como Sebastião Pereira e que escreveu o artigo? A Comissão da Carteira também questiona.

O El Mundo nem queria acreditar e a editora de internacional vê-se obrigada a desligar os meios de contacto.

Respondeu ao sindicato de jornalistas portugueses. "Nada fizémos de errado, recorremos a um jornalista que utiliza pseudónimo e que já conhecemos bem". Respondeu a editora da secção de Internacional do 'El Mundo' ao português Sindicato dos Jornalistas. "Párem de me atacar no Twitter! Párem de me enviar emails! Párem de tentar telefonar-me! Em 22 anos nesta secção nunca me aconteceu algo assim, nem nos casos da Venezuela ou da Turquia!" Nem mais.

Mas o importante agora é saber quem escreve? Ou o importante e refletir-se sobre o que está escrito? Algum leitor lê a assinatura dos artigos? O importante é confiar no jornal e na credibilidade editorial de um jornal. Se o jornalista assina com pseudónimo, ou se não assina sequer não é importante.

Cito um comentário que li no Facebook. "Não consigo perceber que no ano 2017 quando não estamos de acordo com o que se escreve se comece a chamar de facho".

Está ao nível de uma Venezuela, no doubt!

 

P.S. O artigo foi publicado pelo El Mundo, logo vincula ao El Mundo. Não é importante saber se foi o jornalista A ou o jornalista B, não vos parece?

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publicado às 01:05

Foto de Joaquim Casqueiro.

Até agora ainda não percebi porque é que a GNR não cortou o trânsito na estrada nacional 236, já chamada como a estrada da morte?

Será que ouvi bem alguém dizer que as pessoas foram encaminhadas pela GNR para aquela estrada?

Não deviamos já ter prática em incêndios ao ponto de haver especialistas a orientar as populações para as melhores práticas a adoptar?

 

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publicado às 23:35

Das opiniões a Murphy. Um retrato da calamidade

por António Canavarro, em 19.06.17

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Imagem encontrada aqui

A propósito do que se tem escrito sobre o incêndio de Pedrogão Grande, e sobretudo o número abismal de vitimas - se não fossem as mortes não seria "mais um outro incêndio" a lamentar - recordo a leitura de uma obra de Roberto Calasso, ensaísta e ficcionista florentino, que em “Os quarenta e nove degraus” (Livros Cotovia, 1996), escrevia sobre a opinião.

Dizia ele:“a história da opinião é a história mais obscura. Não há nada mais óbvio do que a opinião”. “Os vastos pastos da opinião são o orgulho da civilização” e (sobretudo) “porque a opinião é acima de tudo um poder formal, um virtuosismo que aumenta constantemente, que ataca todos os materiais”.

O maior detractor da opinião foi o vianense Karl Kraus [1874-1936], para quem “a opinião pode falar de tudo, mas não pode dizer tudo.”

Num estado como o nosso, em que a liberdade de expressão passou, pelo menos legalmente, a estar garantida, as opiniões elas valem o que valem. Kraus dizia mesmo que “as boas opiniões não têm valor. Depende de quem as tem.” E, de facto, o elitismo opinador é uma realidade incontornável, uma profissão! E o pior é que eles, tal como os operários, tem que assinar o ponto, nem que seja para “encherem chouriços”!

A calamidade do passado fim-de-semana, que teve o condão de unir os portugueses - somo excelentes a celebrar e a chorar em uníssono - foi sobretudo um dia de muito azar. Um dia em que as circunstancias, ambientais e outras, fazem-me recordar a célebre Lei de Murphy: "qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”! E foi o que precisamente aconteceu!

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publicado às 22:40



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