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Pai é pai... e este é o meu!

por António Canavarro, em 14.02.18

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1| Falar de pessoas que nos são próximas, como sejam os nossos pais, é sempre difícil. Há um conjunto de factores, de proximidade e, também, psicológicos que tornam este exercício numa quase inutilidade. Mas, pai é pai!

Não querendo, todavia, tornar isto num exercício bacoco de snobismo - atitude pelo qual demonstro desdém – reconheço que nem todos os pais são iguais, nem todos tiveram as mesmas circunstâncias, mesmos que todos, enquanto Homens que foram, marcaram, de qualquer forma o devir dos seus descendentes.

Quando um pai, e falo do meu, teve o percurso de vida que teve, então estou com um problema sério e idêntico ao de muitos filhos que tiveram como eu “ um grande pai”. Estamos sempre na sombra. Somos sempre os filhos deste ou daquele. Esta deve ser mesmo a única coisa em que sou solidário com João Soares. Ou seja, as pessoas vêem-nos com um reflexo, e nunca por aquilo que somos. Se ele foi aquilo deve-se ao facto de ter tido um pai marcante!

2| Há coisa de uma década, mais ano menos ano, decidi começar a pintar. Porque o faço. Porque gosto, porque me faz bem – é uma lavagem pertinaz ao cérebro, e, sobretudo, me diferencio. Ou seja, não procuro com as minhas telas ser mais do que o filho de Pedro Canavarro, procurando através da arte a minha “outra” existência?

É provável que sim. Porém se não fosse ele, em tenra idade a levar-me visitar o que de belo existia no nosso país, e, até, fora de portas, uma alavanca para esta minha “libertação”? É claro que sim! E isto é ser um verdadeiro pai, pelo que lhe estou infinitamente agradecido!

 

3|Assim, e aos interessado, convido-vos a estarem, amanhã, no Museu Nacional de Arte Antiga, pelas 18 horas, no lançamento do livro / entrevista do historiador Yann Araújo: “Um diálogo do Pedro Canavarro – “A única coisa que fiz foi viver”, das Edições Cosmos!

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publicado às 17:06

Namoros à portuguesa

por António Canavarro, em 14.02.18

 

Há muito tempo que aguardo o fim da geringonça. Há muito que espero qualquer coisa historicamente dramática como o assassinato de César. Como acontece que nem ela (que já foi actriz), nem ele (que tem uma intersindical para todo o serviço) estão para o apunhalarem, por aqui reina a bigamia, e a Europa ao que parece dá-se bem com estes namoros à portuguesa!

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publicado às 15:46

 

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Costumo dizer, em conversas de café, que o pior que aconteceu a Portugal foi o PREC - Período Revolucionário em Curso. Porque as nacionalizações selvagens delapidaram o capital acumulado ao longo de gerações, e isso explica que no pós-25 de Abril, o regresso dos capitalistas tenha sido feito com recurso a dívida bancária (o que explica em grande parte o desfecho do Grupo Espírito Santo). Um país que tem séculos de história e não tem capital acumulado é um país condenado à dependência externa, sempre à mercê das conjunturas económicas envolventes (sobretudo porque em alternativa Portugal não tem commodities, como petróleo ou gás). 

Mas, não se pense que o período do Estado Novo foi um paraíso saudoso. Pelo contrário. A par com a pujança económica e com a ode à vida em família (que trazia felicidade), o Estado Novo era um lugar de segregação social terrível, e isso gerou dentro de si a semente do PREC. Foi ao perpetuar as clivagens de classe que se criou a revolta que culminou com as ocupações selvagens. Era absolutamente tirana a estratificação social. Não porque não houvesse em termos económicos uma espécie de classe média, essa podia haver, até porque havia as colónias e enriquecia-se nas colónias, mas porque havia uma imobilidade social. A estratificação social era tão rígida e estava tão enraizada nas mentalidades, que dura até hoje. Portugal, nesse aspecto, é, ainda hoje, um dos países com pior qualidade de vida social. Os preconceitos sociais perduraram para lá de outros que facilmente são derrubados perante a influência externa,  de um certo conceito de "modernidade". Portugal é moderninho, mas continua provinciano até hoje. 

A prova que vivemos durante os anos 80, 90, 2000 agarrado a esses conceitos snobs da realidade, foi o sucesso que fez o "Independente" de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, onde o mais apreciado eram as críticas sociais a Cavaco Silva (ao bolo de rei, à meia branca e aos chinelos na praia). O Independente afirma-se pelas críticas sociais e trouxe ao de cima a realidade: em Portugal gozar com o outros era um certificado (bacoco) de superioridade. Eu estava lá (fui jornalista do Independente, mas de Economia) quando a capa era uma fotografia aos pés da família de Cavaco Silva a ir para a praia de chinelos. Aquilo que para mim era infame para a redacção do Independente era um regozijo. Mas era o retrato do país.

Tudo isto se pode ler hoje num artigo do Henrique Raposo.

Portanto serve isto de introdução para elogiar o óptimo artigo de hoje da Revista do Expresso de Henrique Raposo sobre Vasco Pulido Valente, e que sobretudo é um retrato dessa época de atraso social, mais social do que material. 

 

O calendário cronológico marcava Novembro de 1941, mas o calendário moral e social de Portugal ainda estava em Oitocentos. Portugal era uma máquina do tempo, uma ficção reaccionária conhecida por “salazarismo”. Era este oitocentismo que dava a Portugal aquele ambiente exótico que impressionava os visitantes anglo-saxónicos. E repare-se que o exotismo do atraso era mais moral do que material. Na Lisboa de 1954, aquilo que mais impressionou a escritora Mary McCarthy não foi a pobreza material, os pés descalços e o rosto tisnado do marçano, mas sim as relações sociais marcadas por um snobismo que parecia de facto congelado no século XIX e imune à americanização e à democratização das sociedades europeias. O que espantava americanos, ingleses e até espanhóis era a brutal distância entre os senhores doutores e o povo. Era como se os senhores portugueses não fossem de facto portugueses, mas estrangeiros destacados para esta terra estranha e bárbara e com a incumbência de colonizar e educar estes pobres indígenas conhecidos por “portugueses”.

Havia uma separação moral e emocional entre a elite e o tal indigenato que se desbarretava à passagem dos senhores doutores. Vasco Correia Guedes, futuro Vasco Pulido Valente, era um filho desta elite. Do lado paterno, os Correia Guedes eram uma família conotada com as direitas e até com o regime. Do lado materno, os Pulido Valente eram a realeza do reviralho republicano. Criado nesta gaiola dourada, Vasco nunca se demarcaria da patine snobe e cínica em relação a Portugal. Não era por acaso que “os indígenas” era a sua expressão de eleição para descrever os portugueses. Não era por acaso que desprezava esta finisterra com frases que copiavam a boutade de Byron, “lusian slave, the lowest of the low”.

(...)

O nacionalismo bacoco e abstracto do salazarismo (do Minho a Timor) escondia a ausência de capital social, isto é, a ausência de comunhão entre as diferentes classes. Numa palavra, não havia patriotismo. Os diferentes grupos sociais acabam por olhar uns para os outros, não como diferentes classes de um corpo comum, mas sim como espécies diferentes sem qualquer chão comum. Esta era uma sociedade radicalmente desigual, radicalmente snobe. No Alentejo, as famílias terratenentes diziam que “os feitores sabem como lhes hão de falar [aos trabalhadores], nós não”. De esquerda ou de direita, os filhos da elite não se davam com os filhos do povo. A distância era total, quase palpável; os garotos nem sabiam falar uns com os outros. Se por acaso conversassem ou brincassem, essa interacção também era regida pela frieza: o filho do caseiro tinha de tratar o filho do patrão não por “João” mas por “menino João”. Era por isso que o “menino João” podia abusar da criada no quarto dos fundos: esse abuso era como se não existisse, pois era cometido fora do perímetro da classe.

(...)

Em 2018, vivemos tempos de absoluta dispersão pós-moderna, há literalmente centenas de narrativas no ar com aparente igualdade moral e epistemológica; em 1967 ou 1977, respirava-se em Portugal um clima de absoluta concentração da validade moral e epistemológica numa única narrativa, o comunismo, o marxismo, a vulgata. Se hoje em dia é preciso coragem para defender uma crença clássica (ex.: catolicismo) no meio da dispersão e do ‘engraçadismo’ pós-moderno que coloca a sofisticação intelectual apenas e só no cesto da descrença e do cinismo, naquela época era preciso coragem para atacar a crença hegemónica — o marxismo. Nos anos 60, 70 e mesmo 80, recusar a vulgata marxista implicava ser ostracizado nas aulas, nos cafés, na carreira intelectual.

(...)

V.P.V. foi o pioneiro da rebeldia contra esta prisão mental. O seu lugar na história na geração que fez a transição do Estado Novo para a democracia deve-se a esta coragem precoce.

(...)

V.P.V. lutou contra o neorrealismo em defesa de um módico de honestidade intelectual: a filiação partidária e ideológica do escritor não deve entrar na análise que fazemos ao seu trabalho. Contudo, a luta contra o neorrealismo também lhe deixou um vício intelectual que está ligado ao meio social daquela Lisboa minúscula e oitocentista: o snobismo. Neste sentido, há que olhar com redobrada atenção para uma experiência fundamental da juventude de V.P.V., uma experiência ainda mais antiga do que “O Tempo e o Modo” — a revista “Almanaque” (1959-1961).

A “Almanaque” era dirigida por Cardoso Pires e contava com a colaboração de Sebastião Rodrigues, Abel Manta, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, José Cutileiro, Alexandre O’Neill e Vasco Pulido Valente. A revista tinha uma atitude relaxada de bon vivant que chocava de frente com a fria austeridade dos neorrealistas. O neorrealismo defendia que um livro ou autor só poderia ser considerado sério ou sofisticado se estivesse comprometido com a consciencialização social e revolucionária. Contra esta obtusidade comunista, a “Almanaque” assumia-se como um roteiro de curiosidades da vida urbana, uma espécie de “Time Out”. Apostava na fruição da vida, não na austeridade comunista; abordava temas como roupa, comida, carros e até automobilismo. Se Cardoso Pires foi aqui a referência estilística de Vasco, Sttau Monteiro foi a referência para o desenvolvimento da pose do intelectual aristocrático que não se deixava dominar pela estética da alfaia agrícola.

(...)

Ao recusar os excessos do neorrealista, V.P.V. entrou no extremo oposto, o extremo da petulância snobe que recusa colocar os pés no pó da vulgaridade.

(...) 

 

A elite e os indígenas

Lido à distância, o boçal snobismo do “Independente” é ainda mais estranho: como é que a velha soberba snobe, com aquele traço de lorde oitocentista, ainda foi a tempo de ser a base do (alegado) renascimento da direita portuguesa dos anos 80 e 90? Como é que os (alegados) renovadores da direita portuguesa se limitaram a dar uma roupagem pop e pós-moderna aos velhos tiques snobes? E o que assusta é que este orgulhoso snobismo do “Independente” teve um sucesso estrondoso, revelando como as elites dos anos 80 e 90 não tinham mudado muito em relação às elites de 1950. Há um ponto de ligação entre o “Almanaque” dos anos 50/60 e de esquerda e o “Independente” dos anos 80/90 e de direita. Na verdade, como tem dito António de Araújo, a grande clivagem da sociedade portuguesa não é ideológica ou religiosa, é social ou socialite; a clivagem não é entre direita e esquerda, crentes e não crentes, é entre as pessoas que alegadamente têm pedigree e as pessoas que alegadamente não têm esse pedigree. Elites versus “indígenas”.

 Felizmente, o Miguel Esteves Cardoso da velhice e das entrevistas (que me parece mais interessante do que o Esteve Cardoso da meninice e das crónicas) já fez um espantoso mea culpa: “Fomos muito pirosos nisso (ataque a Cavaco e a cavaquistas). Ao princípio, achávamos graça à meia branca, era uma espécie de bullying armado em snobe, de que me arrependo. É muito foleiro, mas éramos novos. Era desagradável o que fazíamos (...) Hoje arrependo-me imenso. E gozar com a condição social da pessoa, com o gosto da pessoa, não é nada conservador (...) Cavaco nunca pôs um processo, nunca chateou, nunca mandou uma carta, mesmo quando foi muito maltratado, foi impecável (...) Essas pessoas com que gozávamos, como o Macário Correia, acabavam sempre por ganhar, porque eram superiores.”

(...)

Se quiser ser digna de respeito, se quiser ser lida e ouvida, a direita deve reconstruir as suas bases a partir desta autocrítica. Ser conservador não é o mesmo que ser snobe. Será que a direita em 2018 está disponível para seguir o Miguel Esteves Cardoso da velhice?

(...)

Numa das entrevistas da velhice [Vasco Pulido Valente], até teve a candura ou coragem para reconhecer que gostava da pequenez da capital dos anos 50 e 60. A elite lisboeta, segundo Vasco, era um mundo “familiar, quase doméstico” em que toda a gente se conhecia pelo nome.

 

 Jornal Expresso, 10 de Fevereiro de 2018

 

 

 

 

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publicado às 12:33

Um rei sábio

por António Canavarro, em 09.02.18

 

“Fomos grandes, e agora somos pequenos. Ainda não nos podemos acostumar a ser pequenos, e no meio da nossa miséria ainda queremos ostentar um luxo que provoca o escárnio. Desenganemo-nos, não vivamos de ilusões; olhemos para a realidade, e seja este o nosso ponto de partida.”

Pedro V

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publicado às 18:02

Sem comentários

por António Canavarro, em 09.02.18

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publicado às 13:15

É preciso ter sentido de humor.

por António Canavarro, em 09.02.18

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publicado às 12:46

D. Manuel, o nada clemente!

por António Canavarro, em 08.02.18

 

O Cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, aconselha a que, nos casos em que não possa ser declarada a nulidade do casamento anterior, deve ser proposto ao casal em situação irregular viver sem a prática de relações sexuais.

Estamos no século XXI, pelo que este posicionamento parece-me altamente retrógrado. A não ser que com este "conselho" - pois é só um conselho - seja uma espécie de estratagema para a Igreja ganhar uns cobres - que deverão ser muitos - com a anulação dos casamentos.

Seja como for, e da minha parte, só lamento que ele seja pouco clemente!

 

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publicado às 11:48
editado por Maria Teixeira Alves a 10/2/18 às 00:46

Woody Allen, na versão vencidos da vida

por Maria Teixeira Alves, em 06.02.18

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"Deixa-me que te ensine um coisa sobre o amor (naturalmente há excepções ao que vou dizer). O amor, apesar do que se diz, não conquista tudo. Nem geralmente dura. No fim, as românticas aspirações são reduzidas ao que pode dar certo (whatever works)"

 

Whatever Works (2009)

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publicado às 00:15

Much ado about nothing

por António Canavarro, em 02.02.18

 

O caso Mário Centeno foi arquivado. Não havia outra solução. 

Que vantagem indevida poderia surgir da oferta de dois bilhetes de futebol? Creio que nenhuma, e dai o seu arquivamento, mesmo que Centeno tivesse feito melhor ao país, e à imagem desgastada dos políticos, se comprasse o bilhete ou visse a bola na TV.

Foi muito barulho para nada!

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publicado às 10:44

Da memória ou do tempo que foge

por António Canavarro, em 31.01.18

 

O facto de trabalhar numa casa-museu obriga a que olhe o passado de forma diferente do comum dos mortais. Não tanto no sentido de ter que viver "entre fantasmas", porque também existem, mas porque se não tivermos uma consciência dos tempos pretéritos, sejam perfeitos ou imperfeitos, não vivemos o presente e condenamos o futuro!

Estas são verdades que me parecem inegáveis e que Virgílio Ferreira soube captar bem:

“Guarda o passado, se não tens já futuro. Porque se também o perderes, o presente que te restar é o da pia, que não tem tempo algum"!

 

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publicado às 10:18



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